Ana Luisa Winckler (*)
Tem gente que nunca frequentou o abismo — e por isso tem a voz tão firme.
É sobre isso que eu quero falar hoje. Sobre o ruído confiante de quem nunca parou para pensar se talvez… estivesse errado.
No mundo corporativo, o Efeito Dunning-Kruger não é só uma tese de 1999. É cultura organizacional. É cargo. É bônus.
Segundo o estudo de David Dunning e Justin Kruger, pessoas com baixo conhecimento sobre um tema tendem a superestimar suas habilidades. Já as que têm real domínio… duvidam, ponderam, enxergam nuances. E por isso, ironicamente, parecem menos “preparadas” para liderar.
O paradoxo é cruel: quem sabe, hesita — quem não sabe, se impõe.
Na prática?
É o gerente júnior dando palpite na estratégia global.
É o palestrante que aprendeu o conceito ontem e já lançou curso.
É o colega que transforma o “eu acho” em método, e o “me disseram” em planejamento estratégico.
E mais: quanto mais alto o tom de voz, mais “confiável” parece.
Quanto mais certezas a pessoa carrega, mais cargos ela coleciona.
O nome disso é ignorância performática.
O mundo chama de “liderança confiante”.
Enquanto isso, quem leu, estudou, refletiu, já errou e corrigiu…
Fala devagar.
Diz “não sei”.
Pede tempo.
Tem vergonha de soar arrogante — porque sabe o quanto custa aprender de verdade.
Mas no organograma, isso soa como hesitação.
E hesitação, você sabe, “não combina com um ambiente dinâmico e de alta performance”.
Sócrates tentou avisar: “só sei que nada sei” — mas foi cortado no feedback por “falta de protagonismo”.
Descartes, que ousou pensar, foi retirado da squad por não ter “visão prática”.
Sartre, que dizia que “o inferno são os outros”, foi afastado por “energia baixa no time”.
Aristóteles, que falava de dúvida como sabedoria, virou alvo da avaliação de desempenho por “não saber se posicionar”.
E Karl Popper, que falava sobre ignorância como recusa ao conhecimento…
Virou post motivacional com filtro sépia.
No fim, o que sobra é a sala cheia. De certezas ocas.
De vozes que não tremem.
De ideias que não se aprofundam.
De decisões tomadas por quem nunca perguntou “e se não for assim?”.
Por isso esta coluna existe.
Para lembrar que dúvida não é fraqueza — é método.
Que voz baixa não é desinteresse — é escuta.
E que liderança de verdade tem rugas, silêncio e o cansaço de quem de fato pensa antes de agir.
As portas de A Outra Sala seguem abertas.
Não para quem grita por vaidade,
mas para quem silencia para entender.
Aqui, o pensamento entra antes da voz.
Rodapé da Liberdade:
Comenta aqui se você já viveu uma call onde o ignorante era o mais confiante.
Ou melhor: marca alguém que precisa urgentemente conhecer o Dunning e o Kruger (não os da firma, os originais mesmo).
E se quiser ler mais sobre esse tipo de exaustão bem embasada, comenta “quero ler”.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
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