O Caminho de Santiago é um projeto de vida

Daniel Agrela (*)

Há mais de 12 séculos, pessoas de todas as partes do mundo têm recorrido ao Caminho de Santiago

O que leva alguém a deixar o conforto de sua casa, as comodidades da vida urbana como carro, sofá de couro, cartão de crédito e delivery da comida preferida para, ao longo de um mês, caminhar todos os dias em um país estranho? Por que não tirar trinta dias de férias e ir à Paris, Roma, Nova York? Afinal, o que leva tanta gente a percorrer a pé mais de 800 quilômetros para chegar a Santiago de Compostela?

Mesmo depois de ter feito duas vezes esta viagem, não tenho uma resposta única para essas perguntas. Há mais de 12 séculos, pessoas de todas as partes do mundo têm recorrido ao Caminho de Santiago, na Espanha, como forma de encontrar um sentido diferente para suas vidas, trazendo à tona um horizonte que vai mais adiante do que nossos olhos enxergam no dia a dia.

Essas revelações, no entanto, não aparecem de uma hora para outra. Tampouco são fruto de alguma magia que possa existir naquele Caminho. As respostas, na verdade, já estão dentro das pessoas. A medida que o percurso é trilhado, elas aparecem, surgem despretensiosamente. Assim, passo a passo, o peregrino começa a entender o significado do Caminho de Santiago: promover o encontro de você consigo mesmo.

Diante disso tudo, o Caminho de Santiago atua como um grande cenário desse encontro. As belas paisagens, as montanhas, os largos campos abertos, o céu exuberante, as flores, as uvas criam uma atmosfera propícia para que o peregrino reflita intensamente sobre sua vida, o que passou e o que está por vir. O viajante passa sua vida a limpo.

Além disso, as amizades que se formam durante o trajeto ficam e ensinam. A cada história ouvida, crescemos. Lembro que com Horst, um executivo alemão, aprendi que às vezes tentar manter a cabeça vazia é a melhor solução para momentos de estresse. Com o peregrino Pablo, de Santander, aprendi a diferenciar um problema real de uma situação cotidiana. “Ter uma doença grave, é um problema. Agora passar por um período de instabilidade no trabalho é uma situação”, dizia ele. Já com o mexicano Memo Vásquez aprendi que a felicidade é uma viagem.

Costumo dizer que a pessoa que começa o Caminho de Santiago não é a mesma que termina o trajeto. Isso porque nos primeiros dias as pessoas chegam com suas feridas da vida cotidiana expostas, seus receios, medos, angústias. Esses ‘machucados’ são tratados durante os dias que se seguem, a cada subida, a cada descida e também nos momentos de descanso. Trata-se de um processo de auto-cura.

Mas para ser merecedor dessas mudanças é preciso sair da zona de conforto e se entregar o Caminho de Santiago. Em uma de suas obras, o escritor Jose Saramago diz: ‘É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós”. E você, vai continuar na ilha?

(*) – É jornalista e autor do livro O Guia do Viajante do Caminho de Santiago – uma vida em 30 dias. É criador da maior comunidade brasileira no Facebook sobre o trajeto (www.facebook.com/OCaminhodeSantiago).

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