Monitoração do trabalho: o comércio da loucura

Maria Inês Vasconcelos (*)

Ninguém discorda de que os avanços tecnológicos trouxeram benefícios também para o mundo do trabalho.

Mas ao mesmo tempo, um cenário de alienação se faz presente. Isto porque a tecnologia criou possibilidades inimagináveis para o monitoramento e controle do empregado, além do que o indivíduo pode suportar. Nesse cenário, nos deparamos com distorções e desvirtuamentos da função empresarial frente aos empregados.

Com a justificativa da otimização de resultados e aumento do lucro, as empresas praticam abusos constantes, ultrapassando as esferas constitucionalmente protegidas da vida privada, contrariando a honra e dignidade do trabalhador. Aquilo que antes se chamava de “follow up”, hoje é o comércio da loucura.

Para ilustrar a extensão desse desvirtuamento, observamos a situação de um bancário, que relata ao menos 100 ligações diárias recebidas de seus superiores durante a jornada de trabalho, para cobrar e incentivar o batimento das metas. A regra é atender, mesmo que esteja executando outra atividade.

Quando as chamadas não são atendidas, o gestor da empresa dispara uma mensagem por Whatsapp, referente às tentativas de contato do empregador, mantendo uma pressão contínua e progressiva. Assim, quando as chamadas não são atendidas e respondidas, um emoji é encaminhado como aviso de acordo com sua cor. O amarelo corresponde a primeira tentativa, seguido pelo vermelho e pelo preto.

O uso dos emojis pretos evidenciam uma gestão deformada e anacrônica, que utilizam o terror e o medo para controlar seus funcionários. Essa estratégia, no entanto, também tem um custo humano e é psiquiatrizante. Em outros casos, os empregadores já informam quanto a obrigatoriedade de manter os aparelhos móveis ligados até duas horas depois do encerramento da jornada, para que a comunicação e oportunidades não sejam perdidas.

Desta forma, se o vendedor estiver dentro de um determinado local, ao qual o sistema de rastreamento e localização indiquem potenciais clientes para a empresa, o funcionário poderá ser compelido a contatá-lo. Essa dinâmica alienante impõe ao indivíduo estar completamente em alerta e impedido de se desconectar do trabalho.

Os monitoramentos empresariais chegam a incluir o uso da internet, tablet, telefones corporativos, câmeras e até questionáveis gravações das conversas telefônicas. Hoje em dia, a exploração cibernética é a nova chibata na linha de montagem, já que tais abusos estão cristalizados na neurose institucional de algumas empresas.

Trabalhar é uma dádiva, mas a liberdade e a privacidade são essenciais para que possamos viver com sentido e equilibradamente. Em razão disso, é evidente que as empresas observem os limites constitucionais, que busca a proteção da privacidade, honra e dignidade do funcionário, e possibilita o ajuizamento de indenizações trabalhistas e, muitas vezes, sanções penais.

Dito isso, poderíamos apontar fatores etiológicos e antropológicos para recriminar a cultura de exploração do homem pelo homem, mas seria como chover no molhado. Isto porque o alienismo existe e reproduz o pensamento da sociedade ao seu redor. No caso, a ideação de que os trabalhadores são os responsáveis pelo declínio econômico do país é o pensamento dominante.

Como dizia Freud, faz parte da natureza humana a ignorância de enxergar certas realidades, pois a indolência e a covardia fazem parte do homem. Um dia, espero que seja possível olhar para esse tema de modo menos “míope”, com a certeza de que estamos produzindo uma legião de psquiatrizados.

(*) – É advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora.

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