Dinheiro e juros baixos

Benedicto Ismael Camargo Dutra (*)

O dinheiro tendeu a se multiplicar e a se concentrar através das atividades econômicas.

Quando chegavam os estouros de bolhas que eliminavam a liquidez, havia choro e ranger de dentes. O dólar, sempre escasso nos países emergentes, exigia empréstimos para cobrir os déficits. A flutuação das moedas deu margem a muitos ganhos especulativos.

Tudo passou a ser cotado em dólar, mas ao se tornar mercadoria escassa, apedrejou os emergentes. Com juros de 16% a 25%, o real ficou valorizado por um bom tempo, até que a dívida foi às nuvens, os juros baixaram, o dólar sumiu, seu preço entrou na realidade.

Os Estados soberanos passaram a absorver capitais, enxugando liquidez e pagando juros extorsivos. Os juros eram pagos pelo governo, mas acabavam recaindo sobre toda a população. Os que tinham poupança aproveitavam a situação levando uma vida cômoda com os rendimentos auferidos. A economia funcionava de forma artificial enquanto as fábricas iam fechando. Vieram crises mais graves; as taxas de juros foram reprimidas como nunca, as bolsas subindo acima da realidade.

Após décadas, os juros baixaram. Parece que na reluzente armadilha tem um queijo atraente; imprudentes, muitos correm para alcançar a isca. Diante das incertezas é hora de prudência. Caímos numa lamentável situação de endividamento. De 2012 a 2017 foram incorporados juros ao redor de dois trilhões de reais.

Houve muita complacência, os juros encobriam tudo, indústrias foram embora levando os empregos e a técnica. O Brasil precisa de soluções para administrar a dívida, mas sem trabalho a população poderá ficar sem ter o que comer.

O Brasil exporta algodão em bruto e importa tecidos e confecções. Exporta cacau e importa chocolate. Exporta café e importa cápsulas para fazer o expresso. O país precisa produzir mais utilizando as benesses da natureza, gerar empregos e renda, e ser feliz a despeito dos descontentes que só querem a desgraça. Os juros baixaram, os dólares foram embora desnudando o desequilíbrio monetário-cambial existente no mundo. Como sair da armadilha, com o atual volume que a dívida chegou, impulsionada pelos displicentes juros altos praticados até 2017?

No atual volume de dívida, se a taxa de juros vier a aumentar, então o caos estará completo. O equilíbrio nas contas internas e externas é fundamental, mas como conseguir aumentar a produção, trabalho, renda e consumo? A produção foi para a Ásia, o mercado financeiro deixado tão à vontade fazia o que queria, sem responsabilidade. O endividamento extrapolou em muitos países. O caso do Brasil é espantoso. O que poderá acontecer se os juros subirem?

A economia saiu da naturalidade, os países produzem pouco, há falta de empregos e estabilidade de preços. Agora precisam criar dinheiro para comprar ativos subprime. Toda essa ginástica financeira será suficiente para estabelecer o equilíbrio?
O que estamos vendo no Brasil é puerilidade, coisa de criança mal educada que se joga no chão do shopping-center até os pais fazerem o que elas querem.

Mas os homens públicos já não são mais crianças, porém insistem em agir sem querer cumprir e assumir a responsabilidade pelo cargo no qual foram colocados; julgando-se donos do país e do futuro, vão semeando ruína por pura arrogância e desfaçatez. A gente corria e conseguia resolver tudo; agora precisamos voar e mesmo assim sobram coisas não resolvidas. O planeta está em estresse devido à cobiça e renhida luta pela sobrevivência.

A nova pandemia atingiu o planeta pondo tudo em rebuliço, revelando as incoerências do sistema e da forma de viver. A humanidade está como que diante de uma cortina que não permite enxergar o futuro, algo que atemoriza e inquieta. Há uma grande expectativa em torno da vacina para retornar ao velho normal. A indefinição é geral, porém as motivações continuam as mesmas. A pesquisa da vacina, como tudo o mais está envolvida com política, planejamento de lucros e valorização das ações.

Na dramática situação que mexeu com todas as atividades e com a psique humana, a inspiração do amor deve ser o caminho.

(*) – Graduado pela FEA/USP, faz parte do Conselho de Administração do Hotel Transamerica Berrini, realiza palestras sobre qualidade de vida. Coordena os sites (www.vidaeaprendizado.com.br) e (www.library.com.br). E-mail: [email protected]; Twitter: @bidutra7.

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