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Como diferentes culturas utilizam consórcios no planejamento patrimonial

em Artigos
segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Thiago Savian (*)

Em um mundo cada vez mais individualista e movido por consumo imediato, os consórcios representam um curioso contraponto: a paciência financeira. Mais do que uma ferramenta de aquisição de bens, eles revelam valores culturais profundos, ligados à cooperação, confiança e planejamento coletivo. Observar como diferentes culturas utilizam os consórcios no planejamento patrimonial é, em última instância, observar como cada sociedade lida com o tempo, o dinheiro e o futuro.

No Brasil, o consórcio é um instrumento amplamente difundido. Mesmo diante de alternativas de crédito mais rápidas, milhões de brasileiros ainda preferem esse modelo, baseado na lógica da espera disciplinada. E não por acaso: os juros altos tornam o financiamento tradicional pouco atrativo, e o consórcio se apresenta como uma maneira mais racional — e menos arriscada — de construir um patrimônio. Aqui, essa modalidade virou sinônimo de prudência. E também de uma certa esperança coletiva: a crença de que é possível crescer junto, dividindo a conta ao longo do caminho.

Mas essa não é uma exclusividade brasileira. Na África, formas tradicionais de consórcio — muitas vezes informais — cumprem papel central na vida financeira das famílias. O que para nós é uma estratégia de aquisição de imóvel, lá é uma questão de sobrevivência, dignidade e pertencimento. Em países onde o acesso ao sistema bancário ainda é restrito, os grupos de poupança rotativa oferecem crédito, proteção e apoio emocional. Um elo entre finanças e cultura que os números frios não conseguem medir.

Já na Ásia, a experiência é igualmente rica. Os chit funds indianos, por exemplo, vão além da função econômica. Eles são parte de uma engrenagem social maior, que envolve família, comunidade e tradição. Em muitos casos, o consórcio é usado como ponte entre gerações — um avô que ajuda a garantir a educação do neto ou um pai que antecipa o casamento da filha, ou seja, planejar patrimônio nessa região, é pensar no outro, muitas vezes alguém que ainda nem nasceu.

Mesmo nos países mais ricos, onde o crédito é abundante, versões modernas dos consórcios têm ganhado espaço, sobretudo entre jovens que rejeitam dívidas longas ou comunidades que valorizam a autogestão financeira. Fintechs na Europa e na América do Norte têm resgatado essa lógica de poupança em grupo, digitalizando um modelo antigo com roupagem contemporânea.

Curiosamente, no mundo muçulmano, onde os juros são proibidos pela lei islâmica, os consórcios surgem como solução compatível com os princípios da fé. Aqui, a motivação não é apenas econômica, mas espiritual. O dinheiro circula de forma justa, sem exploração. É uma forma de cumprir objetivos de vida sem violar convicções religiosas. Uma bela prova de que finanças e ética podem — e devem — caminhar juntas.

O que esses exemplos mostram é que o consórcio é mais do que um mecanismo financeiro: ele é um reflexo de como cada cultura lida com suas prioridades, limitações e esperanças. Em comum, todas compartilham a ideia de que a construção patrimonial não precisa — e talvez nem deva — ser solitária.

Em tempos de hiperconsumo e imediatismo digital, o consórcio resgata um valor fundamental: o tempo. Poucos produtos financeiros nos ensinam tanto sobre esperar, confiar e planejar. E talvez, por isso mesmo, ele continua sendo tão atual. Não importa o nome — consórcio, tontine, chit fund ou stokvel —, essa prática segue resistindo às transformações do mercado justamente por não se render a ele.

(*) Diretor Comercial da Unifisa, empresa brasileira de soluções financeiras, especializada em consórcio.