Ambos Brasis – unir-se é a única solução

Luiz Jurandir Simoes de Araújo (*)

Uma forma esclarecedora de entender o Brasil é dividi-lo em dois pedaços: 25% e 75%. Na década de 1970, o economista Edmar Bacha cunhou o termo Belíndia. Uma parte do Brasil estava ótima (a Bélgica, os 25%) e a outra pobre (a Índia de então). Na década de 1990, a revista The Economist cunhou o termo Italordânia. Uma parte era Itália e a outra Jordânia. Entre 1970 e 1990, a parte Bélgica caiu e a parte Índia melhorou. E, hoje, todos cairão muito com a pandemia.

O Brasil 25% tem escola de adequada qualidade, moradias dignas, plano médico e renda suficiente para uma vida estruturada. E o Brasil 75% mora nas periferias com transporte público lotado, hospitais atulhados e suporte social aquém do aceitável. Esta pandemia maltratará direta e indiretamente os dois Brasis: com desemprego em massa, com enorme queda na renda, com aumento de gastos, com piores serviços públicos, com enorme e profunda piora do endividamento público.

Ambos, 25% e 75%, terão de se sentar na mesa e ter papo de adulto. Paz ou guerra social? Sacrifícios proporcionais ou força bruta para manter o status quo? Vamos gastar 100 bilhões ao ano com transformadoras políticas públicas ou continuar tendo déficit de 100 bilhões com a aposentadoria dos funcionários públicos? Queremos ser um Canadá ou uma Venezuela? Impeachment ou país sem rumo? A pandemia nos forçou a mudar o jogo dos últimos séculos: classe média confortável versus pretos e pobres distanciados. A pandemia acaba com essa distância pacificada por séculos – típico jeitinho brasileiro hipócrita e dissimulado de tapinhas nas costas.

Soluções? Há muitos exemplos: reduzir aposentadorias exorbitantes e usar a economia obtida em escolas e hospitais nas periferias; investimento em tecnologia necessária ao país; reduzir a dívida pública; o Ministério da Educação poderia desburocratizar e deixar pequenos grupos de professores extremamente qualificados abrirem pequenas instituições de ensino superior e técnico nas periferias mais pobres do Brasil; deixar proprietários de faculdades particulares oferecerem cursos técnicos em horários de baixa ocupação; reduzir o salário de alguns funcionários públicos e aumentar os da educação, saúde e segurança; oferecer mecanismos de premiação aos gestores públicos por resultados objetivos alcançados; informatizar e deixar eficiente a gestão pública; financiar as universidades para que possam oferecer soluções tecnológicas gratuitas para micro e pequenos empresários etc. Muitos etceteras.

Priorizar as periferias gerará emprego para o Brasil 75%, priorizando educação e saúde. Assim, 75% se transformarão em 95% em 20 ou 30 anos.

A pandemia que mata pode ajudar a unir os Brasis, ser a parteira do novo. Paradoxal. Quem já estudou estratégia militar sabe que há hora de avançar e horas de recuar. Brasileiros, avancemos. E que os lideres toscos recuem. Saiam da caverna de Platão e voltem para a caserna. Não precisamos de verborragia grosseira.

(*) É Diretor Administrativo FapUnifesp: mestre e doutor em Engenharia Elétrica pela Poli/USP (1997 e 2002). Bacharel em Ciência da Computação pelo IME/USP (1990). Bacharel em Atuária pela FEA/USP (2018). Especialista em Atuária, Modelagem de Risco, Precificação de Ativos e Passivos e Gestão de Investimentos.

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