A democracia é aprovada pela maioria, mas reclama atenção e participação

Rodrigo Augusto Prando (*)

A perfeição pode, na política ou na teoria social, ser encontrada no campo da utopia ou das abstrações conceituais, mas não na realidade concreta.

A democracia é, segundo pesquisa divulgada pelo Movimento RenovaBR e pelo Instituto Locomotiva, a melhor forma de governo para 72% dos entrevistados e, para 84%, há a crença de que são capazes de fazer a diferença no Brasil por meio de seus votos. O resultado, nestes tempos de pandemia, de ataques às instituições e aos valores republicanos, é um bálsamo e, por isso, merece ser reconhecido, mas reclama atenção e participação ativa dos cidadãos.

Para além do aspecto quantitativo, da imensa maioria – 72% dos ouvidos – há que se pensar, sempre, de forma qualitativa. Não basta aprovar a democracia, até porque 28% não a consideram a melhor forma de governo. A famigerada afirmação de Winston Churchill, político conservador inglês e brilhante orador, de que a democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras que foram experimentadas, desnuda um aspecto importante e inegável: a democracia não é perfeita.

Os gregos, por exemplo, inventores da democracia, tinham enormes limitações para que todos pudessem acessar as discussões acerca da polis, pois, estrangeiros, escravos e mulheres, por exemplo, não votavam. Mesmo assim, a filosofia grega e as instituições democráticas foram um grande legado da civilização grega que perduram até nossos dias.

O Brasil está alicerçado sobre uma forma de governo democrática e é uma república federativa. Escolhemos, democraticamente, vereadores e prefeitos, no município; deputados estudais e governadores, no estado; e, finalmente, deputados federais, senadores e presidente da república, no nível Federal. Num sistema de divisão tripartite do poder, temos, portanto, o Poder Executivo, o Poder Legislativo e o Poder Judiciário, ambos devem atuar de forma harmoniosa entre si e possuem mecanismos capazes de colocar freios e contrapesos em relação aos outros Poderes.

Assim, muitas vezes, esquecem-se os eleitores/cidadãos que, ao criticar a qualidade de nossa representação política, estão, no limite, a criticar suas próprias escolhas, já que candidato nenhum chega ao poder sem ser referendado pelas urnas. Ótimo que 84% acreditem que podem mudar a situação do país com seus votos. Podem mesmo!

Para isso, faz-se necessário refletir, ponderar, e escolher, em todos os níveis, para o Executivo e Legislativo, os candidatos que sejam comprometidos com a democracia, com o diálogo, com a construção de consensos, com a civilidade e com o espírito republicano. Temos, aqui e acolá, projetos de autocratas e tiranetes de todas as espécies que não apenas vociferam, mas, também, agem deliberadamente contra a democracia.

A pesquisa ora retratada traz alívio, mas a democracia reclama atenção constante e uma participação consciente. Se valorizamos a democracia e cremos no voto como instrumento de mudança, muitos, por aqui, perguntarão, qual o motivo de estarmos nesta situação, de político com ódio, fake news, negacionismos e teorias da conspiração? A resposta não é tão simples, merece entendimento estrutural de nossa história, dos grupos e classes sociais presentes na sociedade brasileira, bem como das instituições que são, muitas vezes, tomadas pelos “donos do poder”.

A resposta deve, para além deste nível histórico-estrutural, tratar da dimensão individual, de nossas escolhas individuais e de nossa parcela de responsabilidade ao, simplesmente, atacar a política e os políticos sem entender nossa cota de responsabilidade pelo cenário em tela.

(*) – É professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professor de Sociologia e Política. Doutor em Sociologia (www.rodrigoprando.com).

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