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Brasil e Chile se aproximam e apostam no crescimento da balança comercial

em Agronegócio
sexta-feira, 01 de dezembro de 2023

Aparentemente existe uma enorme simpatia e boas intenções, entre os dois países, no avanço de conversas e novos negócios.

Da Redação

O comércio de produtos entre Brasil e Chile deverá crescer daqui por diante. Pelo menos esta é a expectativa do governo andino, que promoveu em São Paulo e, depois, em Belo Horizonte rodadas de negócios entre operadores deste comércio internacional e, antes, conversas na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) sobre investimentos lá e cá. Os eventos – ocorridos na semana que passou – aproximaram mais o Brasil de seu quinto maior parceiro comercial, com quem transaciona US$ 14 bilhões/ano. Nada mal se vermos que em 2021 o valor era de US$ 7 BI, mas existe um potencial a ser explorado, sobretudo na agricultura e pecuária. Ao jornal Empresas e Negócios a vice-ministra de Agricultura Ignácia Fernández disse apostar nesse avanço e seu colega Ricardo Moyano, adido agrícola da Embaixada chilena no Brasil, revelou que trabalha para melhorar (para eles) a proporção da balança comercial, que pende para o lado verde-amarelo em 60% / 40%.

A ProChile, instituição vinculada ao Ministério das Relações Exteriores daquele país, foi a promotora dessa tour de force procurando ampliar a base de negócios. Representantes dos dois países, que estiveram reunidos em hotel paulistano para o Seminário Segurança e Soberania Alimentar: Um Desafio Regional para a Internacionalização, deram bastante destaque ao pequeno produtor rural, “os campesinos”, responsável pelo abastecimento interno no Chile e em grande parte do Brasil também. Em paralelo à inserção do agricultor familiar no sistema de produção, Ignácia Fernández mostrou-se também preocupada com a questão da sustentabilidade, discutida sob o espectro das mudanças climáticas. Para ela, o Chile está no bom caminho, tanto que no último ano expandiu sua agroexportação em 290%, elevando para US$ 28 BI a balança comercial. O Brasil, maior produtor mundial de soja, café, suco de laranja, açúcar e o segundo em carnes de boi e de frango, tem muito a ensinar aos hermanos que se esmeram na produção de vinho, frutas, hortaliças e pescados. Os campesinos chilenos são em número de 600 mil atualmente, e precisam melhorar a parte associativista para ganhar força no acesso ao crédito e facilidades para exportação – por exemplo.

Do ponto de vista da certificação de produtos, existe um acordo entre Brasil e Chile para que ambos sejam autossuficientes em relação ao parceiro. (Cabe destacar que no mercado internacional a certificação custa em média US$ 1.000 e fazendo internamente o custo pode cair um pouco). O brasileiro Allan Rogério de Alvarenga, secretário de Defesa Agropecuária do MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária), acentuou a preocupação do Brasil em termos de soberania (plantar e produzir o que quiser e como quiser) e segurança alimentar, de modo que ninguém passe fome e ainda haja um grande excedente para ser exportado para qualquer país, obedecendo aos mais exigentes padrões sanitários e confiabilidade. Com o Chile existe essa confiança mútua, na certificação, ilustrou. Ele falou de SIF (o famoso carimbo de Inspeção Federal), estabelecimentos registrados e fiscalização, tempo integral, por parte do MAPA e/ou entidades estaduais e municipais. “Às vezes se tem algum procedimento diferente, por questões religiosas, mas o nível de confiabilidade é o mesmo para todos os produtos vegetais e animais”, garantiu.

Ignácia Fernández, vice-ministra da Agricultura do Chile. Crédito/Divulgação

Os desafios internos foram colocados pelos países, demonstrando que existe grande sinergia entre ambos. Santiago Rojas (do Indap, órgão chileno equivalente ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, do Brasil) falou das mudanças econômicas e sociais de toda a América Latina, desde os anos 1960, e os desafios dos tempos atuais. Um dos pontos no Chile – a exemplo do Brasil – é a fixação do homem na terra. “Temos 172 mil usuários do Indep hoje, buscando crédito, subsídios e maior participação na economia”, disse ele, acrescentando que apenas 7% desses agricultores têm menos de 35 anos. Rojas ainda destacou o interesse em aprofundar a discussão com o Brasil para a transição agrícola sustentável e revelou o esforço do país para a transversalidade de gênero. Já existem, nas 16 regiões chilenas, 23 Escolas de Lideranças de Mulheres Rurais.

AMAZÔNIA
Já Fernando Camargo, representando o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), lembrou que as Américas são as maiores exportadoras de alimentos no mundo. “Hoje 200 milhões de pessoas passam fome no mundo e é daqui que sairá esta solução”, sublinhou, argumentado que somente o Brasil poderá aumentar a sua produção de grãos, dos atuais 320 milhões de toneladas, para 450 MM de t “sem derrubar uma única árvore na Amazônia”. Ele, que trabalha na Argentina, representando o Brasil, destacou que o Brasil tem 850 milhões de hectares, dos quais 160 MM são destinados à pecuária e 80 MM à agricultura. Através do programa de recuperação de solos (áreas de pastagens em sua grande maioria), é possível dobrar a produção agropecuária de forma sustentável. Temos solo, água e sol – observou, acrescentando que por estes dias, em Dubai, o Brasil terá um estande na COP28 em que receberá 19 ministros de diferentes países para conhecer de perto o que está sendo feito em termos ambientais e na produção agropecuária.
Eric Pinheiro, assessor internacional da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) também esteve presente ao evento, destacando o esforço brasileiro em proteger a floresta – “agricultores só usam 20% de suas áreas, na Amazônia, protegendo os 80% restantes” – e cutucou os boquirrotos do Velho Mundo ao acentuar que o Brasil “usa 8% de seu território para a produção agropecuária, enquanto países europeus chegam a 50%”. A exemplo do colega Fernando Camargo que vê a agricultura “como solução, não problema, já que a queima de fósseis é que responde pela grande parte das emissões de gases do efeito estufa (GEE)”, Pinheiro discorreu sobre o Sistema CNA/SENAR, contemplando a aprendizagem rural, com 70 mil agricultores e 2 mil sindicatos de trabalhadores filiados. O programa pode ser acessado pela internet, com o que o sistema disponibiliza consultor ao interessado, sem custo. Hoje há sete escritórios pelo país e três no exterior: Dubai, Xangai e Cingapura. Até aqui o Sistema já realizou 257 planos de negócios e espera poder fazer mais.