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Alta performance não pode depender de pressão constante

em Artigos
quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Denise Joaquim Marques (*)

Existe uma diferença importante entre ter fome de conquista e viver sob pressão para entregar resultados. Embora, muitas vezes, esses dois comportamentos se misturem no ambiente corporativo, eles partem de lugares diferentes e produzem impactos distintos nas pessoas e nas organizações.

A fome de conquista nasce do desejo de evoluir, superar desafios, aprender e alcançar novos espaços. É uma energia que impulsiona profissionais em busca de melhores resultados porque existe motivação, propósito e vontade de crescimento. A pressão constante, por outro lado, quando baseada no medo de falhar, perder espaço, decepcionar a liderança ou não atingir uma meta, cria uma dinâmica em que o desempenho passa a depender da tensão.

O problema surge quando a pressão deixa de ser uma resposta pontual diante de um desafio e passa a ser incorporada como método de gestão. Ambientes onde há cobrança excessiva podem até gerar respostas rápidas no curto prazo, mas comprometem recursos essenciais para uma alta performance sustentável, como criatividade, capacidade de adaptação, segurança para propor novas ideias e disposição para recomeçar.

Os dados mostram que esse equilíbrio está longe de ser uma realidade em muitas organizações. O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, aponta que o engajamento global dos trabalhadores caiu para 20% em 2025, o menor nível desde 2020. Em 2022, esse índice havia chegado a 23%, indicando uma deterioração da experiência profissional em diferentes mercados. A queda também representa um impacto econômico relevante. A estimativa da pesquisa é de aproximadamente US$ 10 trilhões em perdas de produtividade no mundo.

Mais do que um indicador de satisfação, o cenário revela um desafio de gestão. Quando ambientes de trabalho são estruturados apenas em torno da cobrança por resultados, sem considerar os recursos humanos necessários para sustentar a performance, as organizações podem comprometer justamente aquilo que buscam preservar, ou seja, produtividade, criatividade e capacidade de adaptação.

Essa discussão ganha força com a atualização da NR-1 e o avanço do debate sobre os riscos psicossociais relacionados ao trabalho. A norma amplia a responsabilidade das organizações em identificar e gerenciar fatores que podem impactar a saúde mental dos trabalhadores, mas nenhuma regulamentação, sozinha, transforma a experiência cotidiana de uma equipe.

A mudança ocorre na prática, principalmente pela atuação das lideranças. São os líderes que definem como as metas são comunicadas, como os erros são tratados, como os desafios são distribuídos e qual mensagem é transmitida quando os resultados não chegam como esperado.

Em equipes comerciais, onde a pressão por metas costuma ser mais intensa, o equilíbrio se torna ainda mais necessário. A performance não depende apenas de técnicas de vendas, processos ou indicadores. Ela exige profissionais com recursos internos preservados: autoconfiança, flexibilidade, criatividade e capacidade de lidar com obstáculos sem perder o engajamento.

Por isso, preparar líderes para reconhecer fatores de risco psicossocial e compreender o impacto de suas próprias práticas de gestão deixou de ser uma iniciativa complementar. Sobretudo, os líderes têm papel protagonista na inserção da prevenção como parte da cultura da empresa. Trata-se de uma necessidade estratégica para organizações que buscam resultados consistentes no longo prazo.

Dentro dessa construção, atitudes que estimulam expressão, criatividade e elaboração emocional podem contribuir para ambientes mais saudáveis. A arteterapia, por exemplo, quando inserida de forma estruturada e conectada à cultura da organização cria espaços de reflexão, comunicação e recuperação do desempenho, ao longo da jornada profissional.

Não se trata de substituir desafios por conforto ou eliminar a busca por resultados. A alta performance continua sendo essencial para qualquer negócio. A questão é compreender que resultados sustentáveis não são construídos pelo desgaste contínuo das pessoas, mas pela capacidade de criar ambientes em que elas consigam performar, evoluir e permanecer engajadas.

O verdadeiro desafio das lideranças na atualidade é estimular a fome de conquista sem transformar a pressão em combustível permanente.

(*) Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing, com foco em estratégias de alta performance, liderança comercial e diferenciação de mercado. – E-mail: [email protected].