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IA acelera empresas eficientes, mas resultado depende do que a gestão faz antes e depois da tecnologia

em Destaques
quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Estruturar processos e dados é só a primeira etapa; ganho aparece quando análises, recomendações e automações entram na rotina de decisão da empresa

A inteligência artificial já entrou na rotina das empresas, mas transformar tecnologia em resultado exige duas etapas que acontecem fora da ferramenta: primeiro, organizar processos, dados, indicadores e responsabilidades; depois, criar uma rotina capaz de converter análises, recomendações e execuções produzidas pela IA em decisões de negócio. Pesquisa global da Cloudera divulgada em agosto de 2026 mostrou que 77% das organizações consultadas já utilizam inteligência artificial. Ao mesmo tempo, 95% afirmaram ter adiado ou cancelado alguma iniciativa ligada à tecnologia no último ano por dificuldades relacionadas à governança de dados, conformidade ou questões regulatórias.

Rica Mello, economista, empresário e executivo com trajetória em consultoria estratégica, gestão e desenvolvimento de negócios, avalia que a inteligência artificial abre uma oportunidade para empresas ampliarem produtividade, capacidade de análise e velocidade de execução, desde que a implementação esteja conectada à estratégia do negócio. Para ele, o principal desafio dos empresários agora é identificar onde a IA efetivamente gera retorno e criar uma gestão capaz de transformar aquilo que a tecnologia entrega em decisões melhores.

“Não se trata de colocar inteligência artificial em tudo. O empresário precisa entender onde existe um gargalo relevante, organizar aquele processo, definir o resultado que espera e, então, avaliar como a tecnologia pode ajudar. Depois, precisa definir como aquela entrega será usada na operação. Quando isso é bem feito, a IA pode multiplicar a capacidade da empresa”, afirma.

Antes da IA, a empresa precisa organizar a casa
A pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br, mostrou que a proporção de companhias brasileiras que utilizam algum tipo de inteligência artificial passou de 13% em 2024 para 17% em 2025. Entre as pequenas empresas, consideradas pelo levantamento aquelas com 10 a 49 pessoas ocupadas, o índice avançou de 10% para 15%. Nas grandes, passou de 38% para 50%. A pesquisa ouviu 4.174 empresas entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026.

Os números mostram que o acesso está aumentando rapidamente. Entre as companhias brasileiras que já utilizam IA, 80% compraram softwares ou sistemas prontos e 60% contrataram fornecedores externos para desenvolver ou adaptar soluções.

Na avaliação de Rica, a facilidade para contratar tecnologia muda também a pergunta que precisa ser feita pelos gestores. Se diferentes empresas passam a ter acesso às mesmas ferramentas, a vantagem deixa de estar na aquisição do software e migra para a forma como cada organização consegue incorporá-lo à operação.

“Antes, ter acesso a determinadas tecnologias podia ser uma vantagem por si só. Com a inteligência artificial, essa barreira está diminuindo muito rápido. Duas empresas podem usar exatamente a mesma ferramenta e obter resultados completamente diferentes. A diferença está em como cada uma organiza processos, pessoas, indicadores e decisões”, destaca.

O ponto de partida não é a ferramenta
Uma ferramenta de inteligência artificial pode resumir documentos, estruturar relatórios, apoiar o atendimento, organizar informações, analisar grandes volumes de dados ou acompanhar etapas comerciais. Para Rica, porém, a implementação deve começar antes da escolha da solução.

O executivo defende que os empresários respondam primeiro a três perguntas: qual problema precisa ser resolvido, qual indicador mostrará que houve melhora e quem será responsável pelo resultado.

“Parece básico, mas muda completamente a qualidade da implementação. Quando a empresa começa pelo problema, consegue comparar o antes e o depois. A inteligência artificial deixa de ser uma novidade tecnológica e passa a ser uma ferramenta de gestão”, ressalta Rica.

Mas a gestão não termina quando a ferramenta entrega uma resposta. Uma análise precisa orientar uma decisão, uma recomendação precisa gerar uma ação e uma automação precisa estar conectada a um resultado esperado. Sem essa etapa, a empresa pode produzir mais informações sem necessariamente melhorar a operação.

“A IA pode gerar um relatório, apontar uma tendência ou recomendar uma ação, mas alguém precisa definir o que fazer com aquilo. Quem recebe essa informação? Qual decisão ela muda? Que ação vem depois? É essa conexão entre a entrega da tecnologia e a rotina da empresa que transforma IA em resultado”, explica o economista.

Essa abordagem ganha importância porque a tecnologia está deixando de atuar apenas como apoio pontual. Sistemas mais recentes já conseguem executar sequências de atividades, consultar informações, organizar etapas e acionar diferentes ferramentas dentro de um mesmo fluxo de trabalho.

Empresas que redesenham processos conseguem avançar mais
Um levantamento da McKinsey identificou que organizações classificadas entre aquelas que extraem maior valor da inteligência artificial são quase três vezes mais propensas a redesenhar profundamente seus fluxos de trabalho. A pesquisa também relaciona melhores resultados à participação da liderança, adoção de processos de validação, acompanhamento de indicadores e integração da tecnologia às atividades da companhia.

Para Rica, essa mudança ajuda a explicar por que gestão e inteligência artificial começam a ficar cada vez mais conectadas. “IA não deveria ser tratada apenas como um projeto da área de tecnologia. Quando ela interfere em atendimento, comercial, financeiro, operações ou tomada de decisão, passa a ser uma discussão de gestão. A liderança precisa entender o processo, definir o objetivo e acompanhar o resultado”, aponta.

Na prática, isso significa revisar a operação antes de automatizá-la. Processos com etapas repetidas, responsabilidades indefinidas ou atividades que não contribuem para o resultado podem ser reorganizados antes da entrada da tecnologia.

“Automação é muito poderosa quando aplicada ao processo certo. Por isso, antes de perguntar ‘o que eu consigo automatizar?’, vale perguntar ‘o que realmente precisa existir dentro dessa operação?’. Muitas vezes, a IA também cria a oportunidade de simplificar o negócio”, explica o executivo.

Pequenas empresas ganham uma oportunidade de produtividade
A redução do custo e da complexidade das ferramentas também cria espaço para pequenas e médias empresas utilizarem recursos que, até poucos anos atrás, exigiriam equipes maiores ou investimentos elevados em tecnologia.

Elaboração de propostas comerciais, análise de documentos, acompanhamento de clientes, organização de informações, construção de relatórios e apoio ao atendimento estão entre as atividades que já podem receber suporte de sistemas de IA.

Para Rica, esse movimento pode reduzir parte da distância operacional entre empresas de diferentes portes. “Uma PME talvez não tenha condições de contratar cinco pessoas para uma determinada área, mas pode usar tecnologia para aumentar a capacidade de uma equipe menor. Isso muda bastante a lógica de produtividade. “O empresário consegue fazer mais com a estrutura que já possui, desde que saiba onde aplicar a ferramenta e, principalmente, como transformar aquilo que ela entrega em ação e resultado”, afirma.

O diferencial estará no que a empresa faz com a IA
A tendência, segundo o economista, é que o acesso à inteligência artificial se torne progressivamente comum. Nesse contexto, possuir uma determinada ferramenta terá menos peso competitivo do que saber integrá-la aos processos da companhia e transformar suas entregas em decisões que melhorem o desempenho do negócio.

O caminho sugerido por Rica começa por projetos com impacto mensurável. Redução do tempo necessário para executar uma atividade, aumento da conversão comercial, diminuição de erros, ganho de produtividade ou melhora no atendimento são exemplos de indicadores que permitem comparar o desempenho antes e depois da implementação.

“O empresário não precisa começar colocando IA na empresa inteira. Pode escolher um problema relevante, organizar o processo, estabelecer uma métrica e testar. Se houver ganho comprovado, escala. Esse modelo reduz desperdício de investimento e transforma tecnologia em capacidade empresarial”, destaca.

À medida que agentes de inteligência artificial avançam e passam a executar sequências inteiras de tarefas, processos, métricas, dados e responsabilidades também ganham importância estratégica. Para Rica, é nesse ponto que estará uma das principais diferenças entre as empresas que apenas utilizam inteligência artificial e aquelas que conseguem convertê-la em produtividade.

“Ter inteligência artificial será cada vez menos um diferencial. O diferencial será saber onde colocá-la, qual decisão ela melhora, qual processo ela acelera e como medir o retorno. A tecnologia pode gerar análise, informação, recomendação e execução, mas é a gestão que transforma essas entregas em decisão, rotina e resultado”, conclui.

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