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O Dilema da Assimetria: Por que a potência militar não basta

em Artigos
quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Marco Aurelio da Silva (*)

O cenário geopolítico contemporâneo do Oriente Médio tem se consolidado como o principal laboratório de uma transformação profunda na arte da guerra no século XXI. À medida que as tensões entre o eixo Washington-Tel Aviv e Teerã se desdobram em meio a atritos navais, impasses diplomáticos e ameaças às rotas globais de navegação, emerge um conceito analítico fundamental para compreender a dinâmica atual: a guerra assimétrica. Nesse modelo de confronto, a posse de uma infraestrutura bélica de ponta e orçamentos militares astronômicos não garante mais uma vitória conclusiva nem a capacidade de impor a estabilidade política desejada.

A estratégia iraniana fundamenta-se na recusa deliberada do combate convencional direto, um terreno em que a superioridade tecnológica e a força de fogo dos Estados Unidos e de seus aliados regionais seriam esmagadoras. Em vez de aceitar o confronto em campo aberto, Teerã e sua rede de aliados regionais apoiam-se em táticas híbridas e no uso massivo de tecnologias acessíveis, como veículos aéreos não tripulados (drones) de baixo valor unitário, mísseis de custo relativo baixo e ações de saturação de defesa em pontos de estrangulamento marítimo cruciais, como o Estreito de Ormuz. Essa abordagem transfere o eixo do conflito da destruição física pura para o desgaste financeiro, logístico e político do adversário.

Para a doutrina militar norte-americana, o desafio decorrente desse arranjo é de ordem estrutural e doutrinária. Manter a presença de grupos de combate, bases avançadas e sistemas de interceptação de altíssima precisão na região exige aportes na casa de 1 bilhão de dólares por dia (cerca de R$ 5,2 bilhões diários). No entanto, neutralizar ameaças assimétricas impõe uma equação econômica profundamente desfavorável: disparar mísseis de defesa cujos custos de fabricação somam milhões de dólares para abater drones que custam uma fração minúscula desse valor gera uma erosão prolongada e insustentável. A eficiência econômica da guerra se inverte, pressionando a capacidade de sustentação do esforço bélico pela opinião pública e pelo Tesouro americano.

Israel, inserido em um complexo contexto de defesa de suas fronteiras imediatas e de combate a múltiplos vetores regionais, busca garantir sua capacidade de resposta e dissuasão tática. Contudo, a atenção da análise geopolítica internacional recai sobre a evidente dificuldade de Washington em converter sua inegável supremacia militar em um resultado estratégico definitivo ou em uma paz duradoura sob seus termos. Quando a maior potência bélica do planeta é confrontada por uma estratégia de atrito difusa, a força bruta isolada da flexibilidade política revela limites claros.

O panorama que se desenha no tabuleiro internacional expõe uma lição crucial sobre a redefinição da força na era contemporânea. No balanço das movimentações militares, das sanções econômicas e das disputas pelo controle das rotas energéticas do Golfo, o sucesso estratégico já não se afere pelo avanço territorial ou pela dimensão do inventário bélico. Ele é mensurado pela resiliência do ator atacado em face da exaustão do atacante. Diante desse cenário, a realidade do conflito se impõe de maneira cristalina: o Irã não está perdendo essa guerra, os Estados Unidos é quem não está ganhando.

(*) Marco Aurelio da Silva é Professor de Relações Internacionais no Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG)