Fabiana Bertotti (*)
Em alguma medida, toda trajetória profissional passa por um momento silencioso, aquele em que ideias são ditas, mas não permanecem; contribuições são feitas, mas não reverberam; competências existem, mas não são plenamente reconhecidas. Em ambientes atravessados por disputas por atenção, tenho chamado esse descompasso de capital comunicacional, conceito que nomeio para definir a capacidade de fazer com que o que se sabe não apenas seja dito, mas efetivamente percebido e valorizado. O termo, como sustento, nasce de uma leitura da obra de Pierre Bourdieu. Ao revisitar o sociólogo francês, identifiquei um tipo de capital que permanecia sem delimitação clara e que, por isso, passou a ser nomeado.
Bourdieu demonstrou que o mundo social funciona como um jogo em que diferentes capitais definem posições e reconhecimento. A partir desse referencial, observei uma dimensão decisiva, a capacidade de transformar conhecimento em presença percebida, repertório em credibilidade, pensamento em influência. É nesse ponto que se insere o capital comunicacional, não como um conceito original do sociólogo, mas como um desdobramento de sua teoria.
Essa competência começa a ser construída desde cedo, mas frequentemente é interrompida por uma crença persistente, a de que comunicar bem é um dom restrito a poucos. A afirmação, recorrente no senso comum, ignora que a comunicação, como qualquer habilidade complexa, depende de treino, repertório e consciência. O efeito dessa interrupção aparece em situações cotidianas, quando ideias relevantes passam despercebidas, enquanto outras, mais bem articuladas, ganham adesão imediata. Não se trata de injustiça, mas de leitura de valor.
O capital comunicacional se manifesta na forma como um argumento se organiza, na escolha de palavras sob pressão, no uso do silêncio e na postura que antecede a fala. Quem o acumula não precisa disputar atenção, pois sua presença já comunica autoridade. O impacto dessa dinâmica alcança trajetórias inteiras, influenciando promoções, contratos e oportunidades.
Há, ainda, uma distorção recorrente, a ênfase excessiva na técnica. Cursos privilegiam gestos e respiração, que são necessários, mas que pouco sustentam a comunicação quando dissociados de conteúdo. A performance vazia, facilmente percebida, evidencia a ausência do que realmente sustenta a fala, o repertório. É ele que permite pensar com precisão e ajustar o discurso em tempo real.
Nesse processo, forma-se um ciclo: quem lê mais amplia o repertório, quem amplia o repertório pensa com mais clareza, quem pensa com mais clareza comunica com mais precisão e quem comunica com mais precisão ocupa mais espaço nas interações sociais. Um exemplo ilustra essa diferença. Dizer que é preciso melhorar a comunicação interna de uma empresa é legítimo, mas genérico. Nomear o problema como uma falha na transferência de decisões reorganiza a percepção e gera ação.
Ao cunhar o termo capital comunicacional, explicita-se uma engrenagem central das relações contemporâneas. Não se trata de substituir os capitais descritos por Bourdieu, mas de evidenciar uma ponte entre eles, a capacidade de fazer com que o conhecimento seja percebido, compreendido e reconhecido. É nessa circulação que, silenciosamente, define-se quem será ouvido.
(*) Especialista em oratória, referência na capacitação de líderes. Direcionou sua carreira para a formação de comunicadores, com especialização em Cinema e Audiovisual pela PUC-PR e cursos de escrita no Brasil e na Inglaterra.
