
Estudo da Brookings Institution estima que 37 milhões de trabalhadores nos Estados Unidos estão altamente expostos às mudanças provocadas pela Inteligência Artificial. No Brasil, essa transformação já aparece nas discussões corporativas: uma pesquisa da Korn Ferry realizada em setembro de 2024 identificou que as empresas enxergam potencial para o uso da IA Generativa em diferentes áreas de Recursos Humanos.
E a maior expectativa está em People Analytics, área em que 30% dos participantes classificaram como “muito alto” o potencial de uso da tecnologia. Esse cenário desloca a pergunta central, que deixa de ser apenas quais funções serão transformadas pela IA e passa a envolver como empresas e profissionais podem conduzir transições de carreira e desenvolver novas competências.
O desafio de recomeçar
A Inteligência Artificial está acelerando as mudanças no mercado de trabalho e aumentando a necessidade de adaptação profissional. Cerca de 30% dos trabalhadores americanos mudam de emprego todos os anos, o equivalente a aproximadamente 50 milhões de pessoas. Com a expansão da IA, profissionais de diferentes áreas podem precisar adquirir novas habilidades, migrar para outras funções ou reconstruir suas trajetórias.
A mudança, contudo, vai além do treinamento. Para quem construiu uma carreira inteira em determinada área, tornar-se iniciante novamente pode significar perder temporariamente os sinais de competência, status e pertencimento construídos ao longo dos anos. A adaptação envolve novos conhecimentos, ambientes de trabalho e, em muitos casos, a conciliação entre trabalho e formação. Em geral, uma transição para uma nova área pode levar cerca de três anos.
“A transição de carreira deixou de ser um evento isolado na vida profissional. Em um ambiente de transformação acelerada, as pessoas precisam estar preparadas para aprender, reaprender e aplicar suas competências em novos contextos. Para as empresas, o desafio é criar condições para que essa mudança aconteça de forma estruturada”, afirma a Korn Ferry.
O que a Korn Ferry faria para resolver?
A solução passa por uma estratégia estruturada de transição. Em vez de tratar a requalificação como uma ação isolada, a empresa precisa compreender o que está mudando, quais competências serão necessárias e como aproveitar a experiência que os profissionais já possuem.
O passo a passo
- Identificar o que está mudando: mapear as funções e competências transformadas pela Inteligência Artificial, compreender as habilidades disponíveis na organização e identificar as lacunas que precisarão ser preenchidas;
- Explicar a mudança e preparar as pessoas: comunicar o que está mudando, por que a transformação é necessária e quais caminhos podem ser construídos. A requalificação precisa fazer parte de uma estratégia de adaptação profissional;
- Conectar competências existentes a novas oportunidades: uma mudança de carreira não significa necessariamente começar do zero. A empresa deve identificar quais competências são transferíveis e como a experiência acumulada pode ser aplicada em novas funções;
- Sustentar a transição no longo prazo: a adaptação não termina com um treinamento ou a chegada a uma nova função. Como a mudança pode levar anos para se consolidar, o desenvolvimento precisa ser contínuo.
“Uma mudança de carreira não significa necessariamente abandonar tudo o que foi construído. Muitas competências são transferíveis e podem ganhar valor em novas funções. O trabalho está em identificar essas conexões e preparar o profissional para aplicá-las em um contexto diferente”, afirma.
No curto prazo, a empresa deve identificar as habilidades críticas e preparar os profissionais para as mudanças mais imediatas. No longo prazo, é necessário a construção de uma cultura de transição contínua, preparando a força de trabalho para diferentes funções e possibilidades.
Atualmente, a Inteligência Artificial está tornando as transições de carreira mais frequentes e complexas. O desafio das organizações está em dar a esse processo um formato estratégico, identificando o que está mudando, explicar a transformação, conectar competências existentes a novas oportunidades e sustentar o desenvolvimento ao longo do tempo.
O futuro do trabalho exige uma mudança na forma como as organizações enxergam carreira e desenvolvimento. Em um mercado no qual a IA redefine funções e competências, a capacidade de aprender, se adaptar e desenvolver novas habilidades precisa ser tratada como parte estratégica da força de trabalho, ao longo de sucessivas transformações tecnológicas.
A experiência acumulada continua relevante, conectada às novas demandas do mercado em um processo contínuo de desenvolvimento.


