Rodrigo Ventura (*)
Em um cenário macroeconômico em que a inteligência artificial (IA) se consolidou como um dos principais vetores de competitividade, o setor de seguros vive uma transformação estrutural. De um lado, está a abordagem pragmática da maior potência seguradora do mundo, os Estados Unidos. De outro, a agilidade operacional e a capacidade de inovação das insurtechs brasileiras.
Essa dinâmica vem redefinindo o ecossistema global de proteção e alterando a forma como as seguradoras desenvolvem produtos, operam riscos e se relacionam com seus clientes.
O mercado segurador americano permanece como uma referência de escala e sofisticação. O setor movimenta mais de US$ 2,5 trilhões anuais em prêmios. Trata-se de um ecossistema profundamente integrado à economia dos EUA, cobrindo desde riscos climáticos complexos até o crescente mercado de cyber insurance, impulsionado pela expansão da economia digital.
Ainda assim, apesar de sua robustez patrimonial e tecnológica, o mercado americano tem adotado uma postura relativamente cautelosa em relação à IA generativa. A prioridade não tem sido a disrupção direta da experiência do consumidor, mas a integração gradual da inteligência artificial aos processos internos de governança, compliance, prevenção de fraudes e ganho de produtividade operacional.
Nesse cenário, as insurtechs nativas ainda representam uma parcela pequena do mercado (cerca de 5% do market share total), atuando sobretudo como aceleradoras de inovação para grandes grupos seguradores.
Diferentemente do mercado norte-americano, o Brasil vem deslocando a inteligência artificial para a camada de interação direta com o cliente avançando na dimensão em que o consumidor percebe valor: a experiência.
Nas seguradoras digitais brasileiras, os agentes virtuais já operam grande parte da jornada do usuário – desde a prospecção e cotação até a assinatura digital de contratos -, e avançado na automação da regulação de sinistros, em tempo real.
A mudança estrutural mais profunda está ancorada na granularidade dos dados. Hoje, com telemetria avançada, monitoramento em tempo real e integração com plataformas da gig economy, as seguradoras passaram a capturar dezenas de milhares de touchpoints por mês. Esse novo nível de precisão analítica amplia a capacidade de compreensão do risco e viabiliza produtos antes inviáveis do ponto de vista operacional ou atuarial. Um exemplo é a proteção de renda para profissionais de aplicativos, calibrada em tempo real com base em quilometragem, comportamento e recorrência de uso.
O desafio daqui para frente será combinar a robustez regulatória e atuarial dos mercados maduros com a agilidade operacional desenvolvida pelas insurtechs brasileiras, a exemplo do Pix para os bancos. Quem conseguir unir escala, confiança e experiência digital terá vantagem competitiva relevante nos próximos anos.
Ao consolidarem ambientes em que a automação é percebida como força complementar – e não substitutiva – da capacidade produtiva humana, as organizações líderes conseguem reduzir resistências à adoção tecnológica e ampliar o engajamento interno nos processos de transformação digital.
Em última análise, a tecnologia vem reposicionando o papel do seguro. Ao superar o arquétipo histórico do “mal necessário”, o setor retoma sua essência econômica original: atuar como mecanismo de mitigação de incertezas e proteção do bem-estar social, operando de forma integrada, fluida e praticamente invisível quando a sociedade mais necessita.
(*) Rodrigo Ventura é CEO da 88i Seguradora Digital
