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Como as novas gerações estão reinventando o setor de alimentos e bebidas?

em Artigos
segunda-feira, 11 de maio de 2026

Alexandre Pierro (*)

Para uma indústria construída sobre escala, eficiência operacional e previsibilidade de demanda, lidar com incertezas não é simples. Esse é o caso do setor de alimentos e bebidas que, por décadas, operou sob uma lógica de ciclos de consumo estáveis e portfólios consolidados.

Contudo, com a chegada das novas gerações, sobretudo a Z e Alfa, este consumo tem passado por grandes mudanças e novas tendências que vêm exigindo dessas empresas que saiam de uma zona de conforto baseada em escala e eficiência, para um território onde a inovação precisa lidar, acima de tudo, com a imprevisibilidade.

Durante décadas, este setor foi guiado por padrões relativamente estáveis de consumo. Preferências eram herdadas entre gerações, a lealdade às marcas era consistente e a inovação seguia uma lógica incremental, com novos sabores e melhorias nos produtos que já tinham ampla aderência pela população. Hoje, esse cenário é profundamente diferente: 54% dos consumidores dizem buscar ativamente novos sabores e experiências ao consumir alimentos, segundo o “Food & Drinks Trends 2025”.

Ao invés de manter padrões repetitivos, o consumidor moderno é mais movido à descoberta de novas opções e tendências, sobretudo se estiverem alinhadas a hábitos mais saudáveis. Dados divulgados no portal Suzy revelam que 65% da Gen Z está disposta a substituir bebidas alcoólicas por alternativas não alcoólicas em ambientes sociais, comprovando essa clara tendência ao consumo consciente.

Os estudos acima mostram que essa transformação não é pontual, mas estrutural. Se, antes, o setor de alimentos e bebidas operava com base em ciclos relativamente previsíveis, hoje passa a navegar em um ambiente de demandas voláteis, experimentais e altamente influenciadas por hábitos mais saudáveis focados no bem-estar – o que reforça não apenas a importância da inovação como peça-chave para se destacar neste cenário, como, principalmente, a sustentação da incerteza como pilar indispensável desta governança.

Ao invés de ser encarado como um risco a ser evitado, o cenário de incerteza pode ser utilizado estrategicamente a favor da simulação de diferentes cenários e seus possíveis impactos, mapeamento das novas demandas dos consumidores, assim como da realização de testes de cada decisão capaz de ser tomada, de forma que seja criado um sistema contínuo de inovação baseado na experimentação, no aprendizado acelerado e na adaptação constante aos desejos dos clientes, de forma que possam continuar desenvolvendo produtos aderentes ao que buscam.

Uma boa governança de inovação analisa e projeta possíveis cenários futuros, fornecendo parâmetros que indiquem os melhores caminhos a serem seguidos que favoreçam com a conquista dos objetivos desejados. Em um mercado onde a previsibilidade já não é mais suficiente para sustentar o crescimento corporativo, a capacidade de governar a incerteza passa a ser, na prática, o novo diferencial competitivo que será determinante para a atração e fidelização de cada vez mais consumidores.

Diante de gerações cada vez mais exigentes que não apenas consomem de forma diferente, mas redefinem, constantemente, o que esperam das marcas, seus produtos e experiências, insistir em modelos rígidos de inovação se torna um risco grave à própria sobrevivência do negócio.

Nesse contexto, a governança de inovação orientada pela incerteza é uma necessidade estratégica para que as empresas respondam, com agilidade, a tais mudanças, mantendo sua relevância em um mercado onde a fidelidade do cliente é cada vez mais complexa de ser sustentada.

(*) – É especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação (https://gestaopalas.com.br/).

Alimentos e bebidas: o consumidor da nova realidade – Jornal Empresas & Negócios