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Integridade pública em transformação: desafios e oportunidades para governança, riscos e proteção de dados

em Artigos
terça-feira, 28 de abril de 2026

Bruno Ferola (*)

Nos últimos anos, a agenda de integridade pública ganhou relevância no debate global sobre governança. Transparência, combate à fraude, uso de tecnologia e gestão de riscos passaram a ocupar posição central nas estratégias institucionais de governos e organizações que buscam fortalecer a confiança pública e proteger recursos. Nesse contexto, o recente relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresenta um panorama relevante sobre os avanços e desafios na implementação de políticas de integridade ao redor do mundo.

O estudo aponta que, embora haja progresso regulatório significativo em diversas jurisdições, ainda persistem lacunas importantes na implementação prática dessas políticas. Muitos países avançaram na criação de normas e diretrizes formais, mas enfrentam dificuldades na operacionalização de mecanismos capazes de transformar esses instrumentos em resultados concretos de prevenção à corrupção, gestão de riscos e proteção de recursos públicos.

A transparência continua sendo um dos pilares centrais dessa agenda. Segundo o relatório, 81% dos países membros da OCDE possuem listas obrigatórias de dados que devem ser divulgados de forma proativa, demonstrando um avanço institucional importante. Entretanto, apenas 61% adotam efetivamente o princípio de “dados abertos por padrão”, o que significa que, em muitos casos, a divulgação de informações ainda ocorre de forma limitada ou pouco estruturada.

O relatório destaca que informações relevantes para a accountability pública, como agendas de autoridades, remuneração de altos funcionários e registros de interação com o setor privado, continuam pouco acessíveis em diversas jurisdições. Isso evidencia um desafio recorrente: a existência de normas que determinam transparência, mas sem a infraestrutura tecnológica e institucional necessária para garantir dados estruturados, auditáveis e realmente acessíveis à sociedade.

Outro ponto relevante analisado pelo estudo refere-se aos sistemas disciplinares e à condução de investigações administrativas. Cerca de 74% dos países da OCDE notificam autoridades criminais quando investigações internas identificam indícios de ilegalidade, demonstrando maior integração entre mecanismos disciplinares e o sistema de justiça. Ainda assim, apenas 37% oferecem treinamento especializado para equipes investigativas, e o uso de ferramentas digitais para gestão de casos permanece restrito a poucos países.

A fraude contra recursos públicos também aparece como um dos principais desafios globais. Estima-se que aproximadamente 5% das perdas globais de recursos públicos estejam associadas a fraudes, tornando esse tipo de crime um dos que mais crescem em diferentes economias. Nesse cenário, cresce o uso de tecnologias avançadas de análise de dados para identificar irregularidades de forma mais rápida e eficiente.

Um exemplo relevante é o sistema ALICE, desenvolvido pela Controladoria-Geral da União (CGU) no Brasil. A ferramenta utiliza inteligência artificial para analisar dados de licitações públicas e identificar padrões suspeitos em tempo real. Entre 2019 e 2022, o sistema contribuiu para o cancelamento de licitações que somavam cerca de €1,5 bilhão e reduziu significativamente o tempo médio de auditoria, evidenciando o potencial da tecnologia no fortalecimento dos mecanismos de controle.

No caso brasileiro, o relatório destaca avanços institucionais importantes, como o Plano de Integridade e Anticorrupção 2025–2027, elaborado com a participação de dezenas de órgãos públicos, empresas e representantes da sociedade civil. Ainda assim, desafios relevantes permanecem, especialmente na mensuração de resultados, na aplicação efetiva de regras sobre conflitos de interesse e na melhoria dos mecanismos de transparência e prestação de contas no financiamento político.

O relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico demonstra que a agenda de integridade pública está cada vez mais conectada à gestão de riscos, à governança de dados e ao uso estratégico de tecnologia. Embora avanços regulatórios sejam importantes, sua efetividade depende da capacidade das instituições de implementar processos estruturados, indicadores de desempenho e ferramentas analíticas que permitam transformar políticas formais em resultados concretos. Nesse contexto, o fortalecimento de programas integrados de governança, compliance, gestão de riscos e proteção de dados torna-se essencial para organizações que buscam aumentar sua transparência, prevenir fraudes e consolidar ambientes institucionais mais confiáveis e resilientes.

Nesse processo, a Protiviti pode apoiar instituições públicas e privadas no desenvolvimento de estruturas robustas capazes de responder aos desafios crescentes da integridade pública no cenário contemporâneo.

(*) Diretor de Forensic and Integrity da Protiviti, consultoria global especializada em compliance, gestão de riscos, tecnologia e inovação.

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