
Ana Letícia Lucca (*)
A inteligência artificial está redesenhando, em silêncio, a identidade do programador. Durante muito tempo, ser desenvolvedor significava essencialmente escrever código, dominar linguagens e construir aplicações linha por linha. Esse modelo ainda existe, mas já não é suficiente. A função se expande: envolve integrar sistemas complexos, compreender profundamente dados, navegar por arquiteturas em nuvem e, sobretudo, pensar estrategicamente sobre o impacto da tecnologia nos negócios e na sociedade.
Esse movimento acompanha uma transformação maior no país. O Brasil vive um ponto de inflexão: a tecnologia deixou de ser uma área isolada e passou a sustentar decisões estratégicas, modelos de negócio e a própria competitividade das empresas. Nesse novo cenário, o mercado começa a buscar um perfil de profissional que entende tecnologia como conexão entre desafios reais, pessoas e soluções inteligentes. É exatamente aqui que surge o novo programador da era da IA, alguém que integra serviços, trabalha com visão sistêmica e age com responsabilidade ética.
A próxima geração de desenvolvedores será avaliada menos pela capacidade de decorar comandos e mais pela habilidade de orquestrar fluxos de IA, conectar serviços em nuvem, estruturar problemas e formular boas perguntas. O diferencial passa a estar na visão, na capacidade de enxergar o todo e desenhar soluções de ponta a ponta. O valor do engenheiro migra do “como escrever o código” para “como desenhar o sistema”, coordenando fluxos complexos, integrando APIs, serviços gerenciados e agentes de IA, e traduzindo objetivos de negócio em arquiteturas tecnológicas coerentes.
À medida que subimos o nível de abstração e automatizamos mais etapas, as complexidades deixam de estar visíveis no código e passam a se manifestar na operação. Ao delegar tarefas à IA, cresce a necessidade de supervisionar, testar, auditar e estabelecer salvaguardas éticas. É o programador que passa a definir padrões de uso responsável, políticas de dados e mecanismos de controle que garantem que decisões algorítmicas não quebrem valores organizacionais nem comprometam a autonomia humana.
Na prática, isso altera profundamente o conjunto de competências exigidas de quem trabalha com desenvolvimento. Habilidades antes consideradas “não técnicas”, como pensamento crítico, visão estratégica, entendimento de negócios e ética aplicada, tornam-se tão importantes quanto a lógica de programação. Não basta “codar”: organizações buscam pessoas com mentalidade de aprendizado contínuo, raciocínio crítico e capacidade de tomada de decisão contextualizada. Ferramentas de IA automatizam tarefas, mas não substituem a habilidade humana de interpretar, negociar prioridades e agir com responsabilidade.
Esse cenário representa uma oportunidade, mas também um grande desafio, especialmente em países como o Brasil, onde o acesso à formação tecnológica permanece profundamente desigual. Como preparar profissionais para esse novo contexto se muitos ainda têm dificuldade até de acessar uma formação básica em tecnologia, quanto mais em nuvem e IA?
O fato é que a computação em nuvem se tornou o coração da transformação digital. Sem ela, não existe escalabilidade, segurança, automação, inovação acessível ou IA aplicada ao negócio. Falar em educação em nuvem, portanto, é falar sobre educar o país para operar no futuro. A nuvem democratiza tecnologia, reduz custos, acelera inovação e permite que empresas pequenas e grandes acessem o que antes era privilégio de poucos. Mas tudo isso só se torna realidade quando existe um ecossistema capaz de formar pessoas preparadas para navegar esse ambiente.
Nossa pesquisa mais recente de empregabilidade confirma esse descompasso: as soft skills são hoje o principal desafio para contratação, citadas por 30,8% das empresas — comunicação, preparo para entrevistas, aderência cultural. Em seguida aparecem as fragilidades na base técnica e nos fundamentos de TI, mencionadas por 19,2%. Ou seja, falta preparo integral, não apenas domínio de ferramentas. Educação em nuvem não é apenas formação técnica: é infraestrutura humana. É um movimento que impulsiona produtividade, competitividade e impacto social simultaneamente. É preparar o país não apenas para acompanhar o futuro, mas para construí-lo.
Modelos de formação que acompanham o aluno do início ao fim, desde o aprendizado até a inserção profissional, são especialmente poderosos. Ao orientar estudantes em entrevistas, portfólios, expectativas do mercado e desenvolvimento de soft skills, cria-se um vínculo real entre novos talentos e empregadores. E esse acompanhamento depois da contratação assegura que esses profissionais sigam crescendo, amparados e conectados a perspectivas de carreira, não apenas “conseguir o primeiro emprego e se virar”.
O futuro da tecnologia será definido por quem tiver acesso a ela e souber usá-la com responsabilidade. Garantir esse acesso de forma gratuita, inclusiva e alinhada às demandas reais do mercado é o que orienta nosso trabalho diariamente. Formar o novo programador da era da IA significa muito mais do que preparar alguém para um cargo técnico: é habilitar pessoas a participar ativamente da construção do futuro do trabalho.
E quem aprende nuvem hoje não está apenas se qualificando para uma profissão. Está ajudando a desenhar o próximo capítulo da economia digital.
(*) CRO da Escola da Nuvem.


