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A nova fadiga corporativa: carregar uma empresa que não carrega ninguém.

em A Outra Sala
terça-feira, 18 de novembro de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

O futuro da saúde não é mental.
É relacional (e isso vai mexer no bolso das empresas).

A gente passou os últimos anos transformando saúde mental em produto:
app de meditação, mapa da ansiedade, trilha de mindfulness entre uma reunião e outra, campanhas com cores pastéis falando sobre “cuidar de si”.

E enquanto isso?

O mundo do trabalho ficou mais solitário do que nunca.

Sistemas que premiam isolamento, metas que esmagam vínculos, lideranças que confundem respeito com controle, e culturas inteiras onde as pessoas passam o dia “convivendo”, mas não se encontram.

Agora começa a surgir um discurso novo:
o futuro da saúde é SOCIAL.
E todo mundo finge que sempre soube disso.

Mas me deixa abrir a porta da Outra Sala pra você ver o que está acontecendo lá dentro:

1. As empresas descobriram a conexão… e já querem empacotar.

Modelos de negócio prometendo “comunidade”, “pertencimento”, “segurança psicológica”, “rede de apoio” …
Tudo lindo,  até virar KPI, meta trimestral e post de employer branding.

O risco?
Transformar vínculo humano na nova moeda corporativa.
Como quem vende café gourmet, só que agora vendendo afeto em cápsulas.

2. A economia da solidão está crescendo.

Tem gente alugando “amiga por hora”.
Tem robô cuidador substituindo vínculo.

Tem CEO prometendo amizade feita por IA, com direito a terapeuta artificial “que não te julga”.

A pergunta é simples e brutal:
o que acontece com uma sociedade que terceiriza até o afeto?

3. O erro da saúde mental vai se repetir se a gente não ficar atenta.

A gente patologizou tudo.
Transformou dor social em “desordem individual”.
Criou uma indústria milionária em cima de sintomas que nascem de estruturas desumanas.

Agora, corremos o risco de fazer o mesmo com a saúde social:
simplificar, higienizar, gamificar, vender.

4. Relações não cabem em metodologia, nem em OKR.

Não existe “iniciativa de conexão” que sobreviva a lideranças tóxicas.
Não existe “cultura do encontro” onde o medo governa.
Não existe “comunidade corporativa” onde ninguém tem tempo para almoçar.

A gente quer vínculo, mas continua adoecendo qualquer coisa que tenta ser humana demais.

5. Se o futuro da saúde é social…

O futuro das empresas será político.
Porque conexão não é evento temático.
É estrutura.
É decisão.
É coragem de mudar o que machuca.

Cuidar das relações é mexer em poder, fronteiras, ego, tempo, rituais, prioridades e métricas.
E, principalmente, é aceitar que nenhuma organização é saudável se as pessoas estão vivendo isoladas dentro dela.

O amor — sim, ele — será em breve o maior indicador de performance coletiva.

Não o amor romântico, fofinho, instagramável.
O amor como ética: cuidado, responsabilidade, consistência, reciprocidade.

Se a saúde mental já colapsou, a saúde social está batendo na porta.

O que as empresas vão fazer com isso?
Transformar em produto?
Ou transformar em cultura?

A Outra Sala já sabe a resposta.
Mas o resto do prédio ainda precisa de coragem para entrar.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.