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Wellness Inclusivo: bem-estar é direito, não privilégio

em Artigos
segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Vivian Muniz (*)

Nos últimos anos, o setor de wellness deixou de ser tendência passageira para se consolidar como parte essencial da vida contemporânea. A busca por saúde mental, nutrição balanceada, atividades físicas, mindfulness e longevidade se tornou pauta recorrente, impulsionada pela pandemia, pela valorização da autonomia no envelhecimento e pela percepção de que envelhecer bem é envelhecer com qualidade. Hoje, médicos prescrevem exercícios, atletas falam abertamente de saúde mental e a tecnologia oferece aplicativos de meditação, nutrição e monitoramento físico na palma da mão.

Mas há um paradoxo gritante: esse universo, que se vende como transformador e libertador, ainda é um território elitizado. A pergunta incômoda é: bem-estar para quem?

Falar em inclusão no wellness não significa apenas abrir portas para academias ou disponibilizar apps. Significa criar soluções que considerem realidades distintas: moradores de cidades pequenas sem infraestrutura, trabalhadores informais com menor acesso a recursos, pessoas com deficiência que precisam de práticas adaptadas, idosos que não se identificam com a linguagem jovem e hipermoderna da indústria. Inclusão é personalizar, traduzir e simplificar. É falar em múltiplos idiomas, reduzir custos e adaptar ambientes para diferentes corpos, cores e culturas.

Eu mesma já me vi desconfortável em lugares que, em tese, deveriam promover bem-estar. Lembro de quando entrei em uma academia badalada e me senti deslocada — como se aquele espaço não fosse feito para mim. Entre paredes espelhadas e corpos perfeitos, percebi que o mundo wellness havia se tornado um código social, um passaporte de pertencimento que exclui mais do que acolhe. Foi um daqueles momentos em que entendi, na pele, o quanto o bem-estar ainda é percebido como privilégio.

Mas nem tudo é exclusão. Há sinais de mudança. Em muitas cidades, surgem alternativas mais humanas e coletivas, como o Baile Charme na Praça da Sé – onde pessoas se encontram para dançar, sem barreiras ou mensalidades; em grupos de corrida gratuitos, como o Corre Junto e o Quabrada Running Crew, para provar que saúde é direito de todos; ou em hortas comunitárias, como a Horta das Flores em Diadema, onde o cuidado com a terra se transforma em alimento, renda e pertencimento.

A tecnologia também tem um papel importante nesse processo: hospitais europeus têm utilizado a realidade virtual para integrar pacientes com mobilidade reduzida; chatbots de terapia operam em dialetos indígenas para romper as limitações da língua; e iniciativas de gamificação engajam populações vulneráveis, como na Índia. Também surgem aplicativos que oferecem recompensas reais, como créditos de celular, pontos de benefícios e até dinheiro na conta, como é o caso de Fully, em troca da adoção de hábitos saudáveis.

O verdadeiro desafio do nosso segmento é tirar o bem-estar da bolha e trazê-lo para o coletivo. Isso exige que empresas ofereçam programas de bem-estar adaptados a todos os colaboradores, incluindo os que estão longe dos escritórios de luxo, políticas públicas que garantam espaços comunitários, campanhas educativas e incentivos simples, como caminhadas orientadas em praças, e comunidades que se organizem em torno de soluções locais, criativas e inclusivas.

O wellness inclusivo não é uma utopia — ele já está acontecendo, nas calçadas, nas hortas, nos grupos de bairro e nas pessoas que redescobrem o prazer de se cuidar sem precisar caber em um molde. Talvez o próximo passo seja simples: reconhecer que cuidar de si também é cuidar do outro.

Afinal, de que adianta falar em autocuidado se ele não cabe na vida real da maioria?

(*) Vice-Presidente de Produto, Marketing e Customer Service na Fully Ecosystem, plataforma de bem-estar que oferece soluções integradas de saúde física, mental e financeira, e acredita que o bem-estar é um direito, não um privilégio.