Ana Luísa Winckler (*)
Tem gente que jura que autenticidade é o novo soft skill.
Mas, se for verdade, o mercado está lotado de gente autenticadamente treinada pra parecer autêntica.
Outro dia, uma influencer de RH disse que “as pessoas precisam aprender a mentir em entrevistas, porque autenticidade demais atrapalha.”
E eu pensei: pronto, agora o RH virou Tinder.
As entrevistas se parecem cada vez mais com primeiros encontros de aplicativo: todo mundo maquiando currículo, ajustando luz, ensaiando respostas e dizendo “eu sou uma pessoa tranquila, mas proativa”, como quem diz “sou fácil de lidar, mas sei o que quero”.
A empresa finge que quer gente espontânea, mas entra em pânico quando o candidato realmente é.
E o candidato finge que é autêntico, mas está mesmo é tentando adivinhar o que o outro quer ouvir.
No fim, dá match entre duas versões filtradas que mal se conhecem.
O resultado? Uma relação corporativa baseada em expectativa, não em verdade.
E expectativa sem autoconhecimento é o primeiro passo pra frustração profissional, aquela sensação de que você está vivendo a vida certa, no corpo errado.
Autenticidade virou um figurino de ocasião.
Todo mundo quer parecer original, desde que continue sendo “fit cultural”.
Mas o que o RH diz querer (espontaneidade) e o que ele realmente premia (controle emocional, fala ensaiada e sorriso de LinkedIn) são espécies diferentes do mesmo animal domesticado.
O problema é que ninguém sustenta um personagem 44h por semana.
Cedo ou tarde, a verdade aparece, geralmente numa reunião de segunda-feira às nove da manhã, quando o café ainda não fez efeito e o “perfil comportamental” resolve tirar férias.
A verdade é que autenticidade não é o oposto de estratégia.
É o oposto de anestesia.
Ela exige autoconhecimento, presença e coragem pra sustentar o desconforto de ser real.
E é por isso que profissional de desenvolvimento, não ensina respostas prontas.
A gente devolve espelhos.
Porque quem vive de expectativa vive cansado, mas quem vive de verdade encontra o lugar certo pra existir, dentro e fora da sala de reunião.
✨ Ser autêntico não é ser perfeito. É ser inteiro.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
