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Surge tecnologia que usa Wi-Fi para reconhecer pessoas

em Tecnologia
quarta-feira, 30 de julho de 2025

Uma nova tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade La Sapienza, em Roma, promete identificar indivíduos com base em como seus corpos interferem em sinais Wi-Fi.

Vivaldo José Breternitz (*)

Tudo isso sem necessidade de câmeras, dispositivos ou qualquer interação direta; porém, a inovação reacende o debate sobre privacidade em um mundo onde o rastreamento invisível está se tornando algo corriqueiro.

Batizada de WhoFi, a técnica é descrita pelos cientistas Danilo Avola, Daniele Pannone, Dario Montagnini e Emad Emam como um identificador biométrico inédito. Em vez de utilizar imagens, impressões digitais ou sensores de qualquer tipo, a abordagem detecta uma espécie de “assinatura” única de cada pessoa a partir das alterações que seu corpo provoca nos sinais Wi-Fi.

Segundo os cientistas, “à medida que o sinal Wi-Fi se propaga pelo ambiente, sua forma de onda é alterada pela presença e pelas características físicas de objetos e pessoas. Essas alterações carregam informações biométricas ricas”.

Para testar a sistemática, os pesquisadores treinaram uma rede neural profunda para reconhecer essas modificações nos sinais como traços únicos de cada indivíduo. Mesmo em ambientes distintos, o sistema foi capaz de identificar pessoas com até 95,5% de precisão.

Embora o uso de Wi-Fi para detectar atividades humanas não seja uma novidade, com aplicações anteriores em detecção de quedas, reconhecimento de gestos e presença por trás de paredes, o WhoFi se destaca por sua precisão e robustez. Um modelo semelhante, o EyeFi, lançado em 2020, atingiu cerca de 75% de precisão.

No entanto, os riscos éticos são grandes. Diferentemente de câmeras ou etiquetas RFID, visíveis e detectáveis, os sinais Wi-Fi são invisíveis, embora os defensores da tecnologia aleguem que o método é menos invasivo por não captar imagens. Já os críticos, porém, alertam para o perigo de vigilância encoberta, especialmente se o rastreamento ocorrer sem o consentimento ou conhecimento das pessoas.
Os próprios autores reconhecem essa tensão entre inovação e privacidade. Embora sustentem que o sistema não capta informações pessoais de forma direta, admitem que o uso sem salvaguardas adequadas pode abrir caminho para abusos.

Por ora, o projeto permanece no âmbito acadêmico, sem aplicações comerciais ou governamentais previstas. Mas, com a proliferação de redes Wi-Fi, a ideia de que nossos corpos possam informar nossa identidade de forma silenciosa e involuntária está cada vez mais próxima de se tornar realidade.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor e consultor – [email protected].