
Desenvolvedores de software da Amazon estão enfrentando uma crescente pressão à medida em que a inteligência artificial (IA) se torna parte central de suas rotinas, alterando profundamente a forma como escrevem código, colaboram com colegas e evoluem em suas carreiras.
Vivaldo José Breternitz (*)
Nos últimos meses esses profissionais estão tendo menos prazo para fazerem entregas e, na prática, vem sendo obrigados a usar ferramentas de IA, como o Copilot da Microsoft e outras da própria Amazon – e essa está se tornando a realidade para desenvolvedores de inúmeras outras empresas.
Na Amazon, equipes têm sido reduzidas à metade, com a quantidade de trabalho a ser entregue permanecendo a mesma. Além disso, profissionais relatam que a natureza de suas atividades mudou: desenvolvedores que se realizavam criando, agora tem a revisão de código criado por IA como a parte principal de seu trabalho – esse é um trabalho com muito menos “glamour”.
A liderança da Amazon vê essas transformações como essenciais para manter a competitividade em um setor onde a concorrência é muito grande. O CEO Andy Jassy afirmou a acionistas que a IA generativa proporciona “grandes retornos para empresas que a usam para aumentar produtividade e reduzir custos”.
Jassy citou a codificação como um dos campos em que a IA “mudará as regras”, e destacou o Amazon Q, assistente interno da companhia, como exemplo de sucesso. A ferramenta reduziu o tempo médio para atualizar aplicativos, gerando ganhos estimados em US$ 260 milhões anuais e fazendo com que quase 80% do código desenvolvido por IA foram entregues sem necessidade de alterações posteriores.
Outras gigantes da tecnologia seguem caminho semelhante. O CEO da Shopify declarou que o uso de IA agora é uma “expectativa básica” e será considerado em avaliações de desempenho. Já o Google anunciou um hackathon focado em ferramentas de produtividade baseadas em IA, com prêmios de US$ 10 mil para as equipes vencedoras – atualmente, mais de 30% do código da empresa é desenvolvido por IA e apenas revisado por desenvolvedores.
Embora alguns gestores argumentem que a IA libera desenvolvedores de tarefas repetitivas, permitindo um trabalho mais interessante, nem todos os funcionários são dessa opinião. A pressão por resultados rápidos tem levado alguns a comparar a situação atual com a automação nos centros de distribuição da Amazon — onde robôs tornaram o trabalho mais repetitivo e desgastante.
Desenvolvedores da Amazon relataram ao New York Times que, apesar do uso de IA ser, em teoria, opcional, tornou-se indispensável para atingir metas que afetam diretamente suas avaliações de desempenho.
O novo padrão também levanta preocupações sobre o desenvolvimento profissional, especialmente entre pessoal de TI em início de carreira. Atividades como redigir documentos técnicos ou testar software — antes consideradas fundamentais para o aprendizado — estão cada vez mais automatizadas, podendo privar os mais jovens da experiência necessária para o crescimento profissional.
A Amazon afirma que a colaboração e a experimentação continuam sendo valores importantes e que a IA deve complementar, e não substituir, a expertise dos desenvolvedores.
O impacto mais amplo da IA sobre a profissão ainda está se desenhando. Em 2024, o chefe da divisão de computação em nuvem da Amazon, Matt Garman, previu que, dentro de dois anos, muitos engenheiros de software talvez nem estejam mais codificando, mas sim focando em entender as necessidades dos clientes e propor soluções inovadoras, deixando as tarefas tradicionais para a IA.
Enquanto isso, a rápida adoção dessas tecnologias tem gerado angústias entre os profissionais de desenvolvimento de software, que devem permanecer atentos, de forma a que não sejam simplesmente substituídos por inteligência artificial.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor e consultor – [email protected].


