Vania Gracio (*)
Aplicativos, redes sociais, serviços de streaming e plataformas de e-commerce tornaram-se parte integrante da nossa rotina diária.
Essa integração é tão automática que muitas vezes não paramos para refletir sobre o que realmente estamos trocando em nome da conveniência. É nesse contexto que a frase “não existe almoço grátis” se torna relevante. Essa máxima nos alerta para o fato de que, mesmo quando algo parece gratuito, pode existir um custo oculto, seja em forma de dados pessoais, privacidade ou segurança.
Para ilustrar essa realidade, trago alguns dados que acompanho há algum tempo sobre o que acontece em apenas um minuto no mundo digital. Embora já estivesse familiarizada com esses números, fiquei impressionada com as mudanças ocorridas em apenas três anos (imagem acima).
Começando pelos dados das redes sociais: em 2021, eram postados 695.000 stories no Instagram a cada minuto. Em 2024, os conteúdos no formato Reels somaram 138,9 milhões, enquanto o TikTok registrava 16.000 uploads de vídeo a cada 60 segundos. A comunicação via redes sociais dispara exponencialmente.
A dinâmica digital também impactou a vida corporativa. Há quatro anos, mais de 197,6 milhões de e-mails eram enviados por minuto. Em 2024, esse número subiu para 251,1 milhões, somados a mais de 1 milhão de mensagens trocadas via Slack, e 229 milhões de minutos foram dedicados a reuniões no Microsoft Teams. Essa aceleração na adoção de novas tecnologias, incluindo plataformas de inteligência artificial como Google Gemini e Siri, é inegável. Um dado que chamou minha atenção foi o alarmante número de 4.080 registros comprometidos em violações de dados em 2024.
Diante desse cenário, reafirmo meu ponto inicial: não existe almoço grátis. As informações sobre nossos hábitos de consumo, preferências e até interações pessoais tornaram-se o “pagamento” que fazemos para desfrutar da comodidade de trabalhar em home office, fazer compras online, reservar restaurantes ou criar conteúdo com IA para redes sociais.
E qual é a relação disso tudo com a comunicação? Tudo! Segundo a pesquisa Accenture Life Trends 2025, mais da metade das pessoas questiona a autenticidade do conteúdo online, o que afeta tanto as compras quanto as interações com marcas. Alarmantemente, 33% dos entrevistados relataram ter sido vítimas de golpes ou ataques de deepfake no último ano.
Diante dessa crise de confiança, que cresce a cada dia, cabe ao marketing e à comunicação o papel crucial de disseminar informações precisas e construir relações de confiança.
Por onde começar? Dentro de casa, capacitando as pessoas e fornecendo as ferramentas adequadas. Não podemos exigir qualidade em um serviço utilizando ferramentas gratuitas que oferecem funcionalidades limitadas ou que exploram dados pessoais, sejam da empresa ou do cliente, para treinar algoritmos.
O mesmo estudo da Accenture indica que três em cada quatro consumidores desejam que as empresas respondam mais rapidamente às suas necessidades. Não consigo imaginar uma forma de atender a essa demanda sem o uso inteligente da tecnologia.
O meu ponto é que a falta de confiança não é apenas uma questão de segurança, mas também de transparência. Como comunicadores, estrategistas e criadores de conteúdo, temos a responsabilidade de sermos exemplos, tanto internamente quanto para o mercado. Devemos utilizar inovações confiáveis, deixar claro onde a automação está ocorrendo, respeitar direitos autorais e, acima de tudo, proteger a privacidade dos dados.
Nesse “novo” cenário, é fundamental adotarmos uma postura ética e transparente, construindo um ambiente digital onde a confiança possa florescer. Afinal, no mundo da tecnologia, o verdadeiro valor não está apenas no que recebemos, mas na forma como escolhemos interagir com ele.
(*) Founder & CEO da Sing Comunicação.