Jairo Rozenblit (*)
No cenário atual de tecnologia e inovação, as empresas que desejam oferecer produtos de alta qualidade ao consumidor brasileiro enfrentam diversos desafios, especialmente quando se trata de trazer esses produtos do exterior. O Brasil, com seu vasto mercado consumidor e uma população altamente conectada e ávida por novidades, ainda impõe uma série de barreiras à importação de bens tecnológicos. São obstáculos de ordem tributária, burocrática e regulatória que geram uma complexidade de custos e processos que impactam, no final das contas, o próprio consumidor final.
Recentemente, demos um passo em direção à simplificação tributária com a apresentação do Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 68/2024. Essa proposta visa substituir uma série de tributos indiretos – como o ISS, ICMS, PIS/COFINS e o IPI – pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Esses novos tributos prometem reduzir a complexidade do atual sistema de impostos indiretos. No entanto, a proposta ainda traz algumas incertezas sobre como as operações de importação serão afetadas em sua execução prática. Enquanto a intenção de simplificação existe, o processo de transição e adaptação pode vir a apresentar desafios adicionais para o setor de tecnologia.
Atualmente, uma empresa que deseja importar produtos de tecnologia para o Brasil precisa enfrentar um emaranhado de tributos indiretos, cada qual com regras e exceções próprias. Na prática, isso significa que a mesma mercadoria pode ter uma carga tributária diferente dependendo da região onde será vendida ou de especificidades no perfil da empresa. Esse cenário gera uma discrepância que muitas vezes interfere na competitividade e eleva os custos de controle e adequação tributária para as importadoras, especialmente no setor de eletrônicos e periféricos, onde a competitividade é acirrada.
A carga tributária sobre importação exige que as empresas invistam em controles financeiros e administrativos para dar conta das exigências locais. Esse esforço implica em uma estrutura robusta de gestão e um olhar diferenciado ao consumidor: nosso maior beneficiado.
Apesar dos desafios, o consumidor brasileiro continua a valorizar a qualidade e a confiabilidade dos produtos de tecnologia. Marcas internacionais de renome conseguem conquistar o público local exatamente por oferecerem produtos que atendem a altos padrões de desempenho e durabilidade. Esse reconhecimento, no entanto, não é construído da noite para o dia. Empresas que almejam ter presença consolidada no Brasil precisam investir em comunicação, suporte ao cliente e entender as peculiaridades do mercado local. Assim como faço.
É nesse contexto que a confiança no produto e na marca se torna um diferencial. Em um setor onde novas tecnologias surgem rapidamente e há uma proliferação de opções no mercado, os consumidores estão cada vez mais conscientes do que esperam de um produto e da empresa que o fabrica. Produtos que aliam inovação com facilidade de uso, ergonomia e durabilidade são cada vez mais valorizados, e a construção de uma relação de confiança com o consumidor é fundamental.
Além disso, a crescente demanda por dispositivos sem fio reflete o desejo do consumidor brasileiro por comodidade e mobilidade. Segundo dados recentes, os dispositivos sem fio já representam 31% do mercado de mouses e teclados, com uma tendência acelerada de crescimento. Para empresas que lideram esse mercado, a busca contínua por soluções que atendam às demandas do público local é essencial para garantir competitividade.
Para empresas de tecnologia, o Brasil representa um mercado com enorme potencial de crescimento. A população é conectada, aberta a novas tecnologias e, cada vez mais, demanda produtos de alta qualidade que facilitam o cotidiano.
A reforma tributária brasileira é um passo importante em direção a uma economia mais simplificada e menos onerosa, mas o sucesso dessa mudança dependerá de como será conduzido o período de transição. Para que o consumidor brasileiro possa realmente usufruir de produtos de qualidade a preços mais acessíveis, será necessário que o sistema tributário e os processos de importação evoluam no sentido de reduzir as barreiras que, por muito tempo, têm limitado o acesso dos brasileiros às melhores tecnologias. É uma oportunidade de avanço para nosso país, e consequentemente para o mercado.
(*) CEO da Logitech no Brasil, multinacional Suíça de tecnologia que atua com periféricos, games, videoconferências e música. Com a marca desde 2012, quando entrou em território nacional, o executivo é heavy user de soluções tecnológicas e contribui ativamente para a atual liderança de mercado em periféricos.