
Apesar das intempéries do mercado, como a menor remuneração e crédito limitado, além da luta contra pragas, setor projeta crescimento dos biológicos.
Redação
O Brasil alimenta um em cada sete habitantes no mundo. E esta proporção pode aumentar, porque o país é um dos únicos que expande sua agricultura ano a ano. Somente o chamado mercado de biológicos, de atuais R$ 6 bilhões, deverá faturar R$ 10 BI em 2029. Apesar dos números, o setor reclama da alta concorrência (140 empresas em operação), retração de compras, menor rentabilidade dos produtores de grãos e limitações de crédito. E isto não é tudo, pois além das pragas brasileiras existem mais de 50 outras pragas, exógenas, doidinhas pra furar a fila e se estabelecer neste imenso campo nacional, contra as quais existe lu ta diária. Estes e outras aspectos foram apresentados durante o 2º Workshop ANPII Bio de Inteligência de Mercado, organizado pela Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos.
Embora a legislação nacional sobre agrotóxicos ainda tenha dificuldades em separar químicos de biológicos (a Lei de Bioinsumos é recente e precisa ser regulamentada – veja abaixo), existem avanços na área quanto à classificação e modelos de negócio. A indústria de biológicos realizou evento na cidade de Campinas (a cerca de 100 km da Capital de São Paulo), durante toda a terça-feira última, reunindo 120 convidados e mais de 30 empresas, para atualizar a troca de informações e identificar progressos. A cadeia de produção divide-se em subsetores, que envolvem métodos e tecnologias volt ados às culturas da soja, café, milho, cana e algodão principalmente. Evitando a expressão agrotóxicos (seja em aplicações químicas ou biológicas), o setor prefere a terminologia biodefensivos. Atualmente, o Brasil tem um mercado de R$ 6 BI (sobretudo com as culturas do café, soja e cana) ocupando uma área de 250 milhões de hectares tratados. Sozinha, a soja responde por quase metade disso.

Do mercado total de biológicos, segundo a ANPII Bio, 25% são produtos bioinseticidas para combater pragas como as brocas no café e nos citrus; ácaros, pulgões e percevejos no algodão e na cana; e a cigarrinha no milho, entre outros. “Temos trocas de informações entre todo o setor, inclusa a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)”, disse Lars E. Schobinger, sócio-diretor da Blink Strategie, ao jornal Empresas&Negócios.
Ainda segundo ele, para combater as mudanças climáticas na agricultura, o Brasil (a exemplo de outros países voltados ao setor) investe em desenvolvimento de tecnologia. Exemplo: ao adicionar uma determinada bactéria ao fertilizante (produto importado que tirou o sono de muitos produtores de grãos, no início da guerra da Ucrânia), o composto aumenta de tamanho, pela via biológica, estabilizando assim a oferta. Graças a isto, ainda como ilustração, a dependência da Ucrânia diminuiu enormemente, regularizando-se oferta e demanda. A tecnologia também é aplicada no controle de pragas internas e na criação de barreiras às pr agas externas (haja pragas neste país tão grande…). Só dessas últimas, há uma “fila” com mais de 50 tipos sendo monitoradas – revela Schobinger.
Sobre as guerras em várias partes do mundo, que afetam todo o comércio internacional, há pouco a fazer, porque o poder de decisão não está em nossas mãos, comenta o empresário, mas sempre existe a preocupação de se minimizar seus efeitos.

NOVA LEI
No final do ano passado foi aprovada a Lei de Bioinsumos (Lei 15070 / 24) versando sobre “todos os sistemas de cultivo, incluídos o convencional, o orgânico e o de base agroecológica”; abrangendo “todos os bioinsumos utilizados na atividade agropecuária, incluídos os bioestimuladores ou inibidores de crescimento ou desempenho, semioquímicos, bioquímicos, fitoquímicos, metabólitos, macromoléculas orgânicas, agentes biológicos de controle, condicionadores de solo, biofertilizantes e inoculantes”.
De acordo com levantamento da DunhamTrimmer LLC International Bio Intelligence, o país responde por 11,3% do consumo mundial desses produtos. Em segmentos como bioinoculantes e biodefensivos, essa participação é ainda maior, alcançando 12,6%, com projeção de atingir 16,4% até 2030 — o que significa que, até o final desta década, um sexto da adoção global desses dois insumos biológicos virá do mercado agrícola brasileiro. A ANPII Bio acredita que, uma vez regulamen tada, a lei criará estímulos e processos desburocratizados para as indústrias produtoras de bioinsumos, bem como para a pesquisa científica e o meio acadêmico, assegurando o crescimento da adoção desses produtos no médio prazo.
A evolução do setor está atrelada às inovações tecnológicas e à ampliação do uso de biológicos em diferentes culturas e regiões do Brasil
“Também enfatizamos a necessidade de criar linhas de financiamento com taxas de juros mais baixas para produtores que incorporarem bioinsumos em seus sistemas produtivos, gerando maior demanda no campo por essa tecnologia”, diz Larissa Simon, diretora de Operações da ANPII Bio, acrescentando que as associadas da sua entidade projetam crescimento para 2025 de 12,4% para os inoculantes e de 20,4% para os biodefensivos, com destaque para tecnologias como inoculantes solubilizadores de nutrientes e bioinseticidas. “A evolução do setor está atrelada às inovações tecnológicas e à ampliação do uso de biológicos em diferentes culturas e regiões do Brasil”, explica ela. Cabe destacar que além da expansão no mercado interno, o Brasil também se posiciona como líder global em bioinsumos.
Nem tudo são flores. A limitação de crédito, baixa diferenciação de produtos, estoques altos pressionando preços e redução de margens do produtor são pontos que incomodam o setor, como destacaram os palestrantes Linda Barros, Anderson Ribeiro e Lars Schobinger. De qualquer maneira – “noves fora” –, o setor segue otimista, “apesar do cenário de incertezas de 2024 e do início deste ano, marcado por retração das compras, menor rentabilidade dos produtores de grãos e limitações de crédito, com aumento acentuado dos riscos de inadimplência”, destacou Anderson Nora Ribeiro, sócio- fundador da 5P2R Marketing de Precisão.

REPRESENTAÇÃO
A ANPII Bio é a primeira associação representativa de insumos biológicos no Brasil, desempenhando importante papel na construção de uma legislação moderna e segura junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e outros órgãos reguladores. “Isso permite que o setor produtivo ofereça produtos eficientes e inovadores, com biotecnologia de ponta aplicada à agricultura sustentável”, enfatiza a entidade que, em parceria com a Embrapa e outras instituições de pesquisa, viabilizou estudos visando diversificação e expansão do setor, com mais de 150 empresas desenvolvendo e comer cializando bioinsumos “que beneficiam agricultores, meio ambiente e sociedade”.