ISSN: 2595-8410 Contato: (11) 3043-4171

J. B. Oliveira

"Me divirto tudo que tenho direito"

 

 

                                                                                                                                                           * J. B. Oliveira

 

 

Mais de uma vez já me perguntaram: “você lê alguma coisa buscando erro ou conteúdo?” Claro que leio buscando conteúdo, porque buscar erro é algo bem desagradável, além de não ser minha função.

O que acontece é que o erro vem espontaneamente e se apresenta a mim. O que posso fazer então, senão reconhecê-lo. Por outro lado, nos dias atuais é tão difícil depararmos com o que mereça o nome de “conteúdo”, que o que acaba aparecendo é o resto... e resto é erro!

Dia desses, estava na engraxataria da Galeria que liga a 24 de Maio à Barão de Itapetininga, polindo os sapatos (sim, porque ali o que fazem é polir o calçado, dar-lhe brilho, e não engraxar, isto é, enchê-lo de graxa, sem dar-lhe a aparência de limpo, luzidio...). “Marrom”, apelido pelo qual é conhecido um dos melhores profissionais de São Paulo e que forma, com o Hélio, uma dupla imbatível nessa arte, entregou-me para ler a edição do jornal “Agora”, do grupo Folha.

Lendo-o, encontrei, na página 5, anúncio de meia folha mostrando um sorridente garoto com uma mochila às costas e a tal expressão “Me divirto tudo que tenho direito.”... É evidente que a responsabilidade pelo texto não é do jornal, mas da entidade que mandou publicá-lo e da agência que o produziu. De qualquer forma, caberia a quem de direito o dever e o cuidado de revisá-lo. Por quê? Porque toda comunicação com o público – seja qual for: interno ou externo – deve ser uma aula de língua pátria.

Quantas pessoas irão ler esse anúncio e tomar como correta sua construção? Afinal, está em um “veículo de comunicação de massa”! Num órgão da imprensa e esta tem, entre suas funções: “informar, instruir, educar”... Lembrei do amigo Mohamad Murad que, quando vereador, apresentou o Projeto de Lei n° 928/97, que se converteu na Lei 12.657/98 (que não consegui localizar...).

Eram seus dizeres: “Artigo 1° – Ficam os comerciantes e anunciantes obrigados a corrigir os erros gramaticais eventualmente ocorridos nas faixas, cartazes, outdoors e placas de publicidade, no prazo de 30 (trinta) dias subsequentes à notificação expedida pelo Poder Público.
Parágrafo único – o descumprimento do disposto no caput deste artigo ensejará multa de 500 UFIR por erros em outdoor e 100 para os demais meios de comunicação. Artigo 2º - Cabe ao Poder Público criar uma central de informação com profissionais da área para orientar e esclarecer dúvidas da Língua Portuguesa aos interessados”.

Eu jamais soube de alguma empresa ou instituição que tivesse sido autuada com base em tal lei. Certamente porque entrou no rol das famosas “leis que não pegam”. Aliás, se fosse das que pegam, o primeiro autuado seria... o Poder Público Municipal! Bastaria uma vista d’olhos em placas indicativas de ruas e logradouros públicos para constatar o “ilícito gramatical”!

Grafias como Pacaembú; Turiassú e Paissandú são exemplos da aplicação de um acento agudo (´) inexistente. Essa acentuação na oxítona terminada por semivogal “u” só se dá se, antes do “u”, vier uma vogal, casos de AnhangabAú; ItAú; TambAú etc. A mesma regra se estende às oxítonas terminadas pela semivogal “i”, em que são formas corretas: JundiAí; CarambEí; AvAÍ e semelhantes; e incorretas: Paratí; Guaraní; Itapeví etc.

A rigor, no caso das palavras Turiassu e Paissandu, seria recomendável a grafia Turiaçu e Paiçandu, por serem “palavras de origem ameríndia”. Entretanto, o próprio Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa reconhece essa outra grafia por serem formas consagradas pelo uso...

E no anúncio, o que há de errado? Logo de cara, o “ME divirto...”! Ora, “não se inicia nenhuma frase em português com pronome oblíquo átono”! A forma certa seria “Divirto-me...”. Aí alguém poderia achar ser um preciosismo. Então a solução seria iniciar com o pronome pessoal do caso reto: “EU me divirto...”. O restante da frase também deixa a desejar quanto à regência. Um jeito de diminuir o problema seria acrescentar uma preposição entre “tudo” e “que”, assim: “Eu me divirto tudo A que tenho direito”. Porque “quem tem direito, tem direito A alguma coisa”!

Melhor ainda seria “Eu me divirto com (ou em) tudo a que tenho direito”...
Ou então, mudar todas a construção da frase.

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