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Mar de lama

O jornalista publicou que  havia um mar de lama sob o palácio presidencial. Sofreu um atentado no qual foi ferido e seu segurança pessoal, um major da aeronáutica, morreu.

A crise tomou uma tal dimensão que envolveu o próprio presidente. O final foi uma tragédia como todos sabem. Os desdobramentos dessa crise contribuiram para o golpe de 1964. Deferentemente do mundo político, as crises que atingem o mundo corporativo, a maioria delas, poderiam ser evitadas. Não se trata aqui de premonição, quiromancia, chute ou tarô. Nem as recomendações das velhas carpideiras “ Eu não avisei...”

Não faltam oportunidades para empresas utilizarem oportunidades para impedir que os desastres aconteçam com a lama enlameando a reputação e a marca, ainda que ela seja uma gigantesca mineradora e não venda diretamente produtos para o público. Ainda assim a marca sofre arranhões que podem nunca mais desaparecer.

Os gestores são pressionados pelos acionistas. Querem mais resultado, um eufemismo para a palavra lucro. Eles ficam entre a cruz e a caldeirinha. Para melhorar a rentabilidade, renumerar melhor os acionistas, nacionais ou não, precisam abrir mão de ações que têm custos altos. Segurança estrutural, por exemplo. Uma coisa é exigir que todos os funcionários usem capacete na área de trabalho e por belas fotos nas redes sociais da corporação.

Outra coisa é investir milhões de reais em uma barragem que
funciona bem, ainda que vez por outra, seja suspeita de não conter os rejeitos da mineração. É preciso gastar esse dinheiro. Mas quem vai pôr o guiso no pescoço do gato, arriscar e perder o emprego, o bônus de final do ano, o jatinho da empresa para viagem de férias e outras regalias?

O gestor profissional sabe que sua passagem por lá tem vida curta, assim por que arriscar uma bela aposentadoria investindo uma grana preta em uma barragem precária e que não acrescenta nada nos lucros da empresa? Melhor não. Esta é a máxima dos chefes e não dos líderes. Estes põem o pescoço na guilhotina, os outros não. Uma tragédia como o rompimento de uma barragem não pode ser contido dentro das paredes de uma corporação. Hoje, graças as redes sociais, nem as pequenas.

Nas crises o presidente da gigante é atirado à mídia como se joga carniça para os chacais. Nada tem a dizer além da meia dúzia de key messages que decorou na viagem de volta, durante longa noite e madrugada. De um lado os parentes dos desaparecidos no mar de lama, de outro os acionistas temerosos que há uma ameaça real ao negócio e ao futuro da empresa. E dos seus capitais investidos, muitas vezes, nas bolsas de valores.

Nem a ameaça severa, alto nível de incerteza nem urgente necessidade de ação comoveram o boarding. Na outra ponta um bando de cigarras e baratas tontas batem cabeça em declarações à nação. São os gestores públicos, que nada veem, não tem nenhum compromisso com os eleitores e contribuintes. O tempo é o senhor da verdade, dirão enquanto esperam que a tormenta passe. Depois virão com discursos e projetos infindáveis mas nunca executáveis.

Os advogados da corporação já rechaçam que houve um homicídio doloso por omissão, mas apenas um crime ambiental. Daqueles tantos que não dão em nada e enchem cemitérios.

(*) - É editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

ET. Um jornalista de uma pequena emissora de tevê nos Estados Unidos fêz uma reportagem e descobriu que as represas lá estavam há 35 anos sem fiscalização. Fêz a reportagem sem sair da redação.

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