ISSN: 2595-8410 Contato: (11) 3043-4171

Geraldo Nunes, jornalista e memorialista,
integra a Academia Paulista de História.
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Estradas que nasceram a partir de antigas trilhas abertas pelos índios

Um assunto sempre interessante diz respeito às estradas que surgiram a partir de antigas trilhas abertas pelos índios, especialmente pelos caminhos que levam ao litoral, entremeando a Serra do Mar

1280px-Silva, Oscar Pereira da - Caminho do Mar - Calçada de Lorena, 1826 (cropped) temporario

Calçada de Lorena, pintura de Oscar Pereira da Silva. Reprodução

Geraldo Nunes (*)

Em meio á mata fechada o homem branco, para descobrir esses caminhos, precisou se tornar amigo dos índios, como foi o caso do padre José de Anchieta, que hoje dá nome a uma das rodovias da ligação São Paulo/ Santos em justa homenagem. Outras trilhas da Serra do Mar, conhecidas somente pelos tamoios do litoral norte paulista e do Rio de Janeiro, deram origem a atuais trechos da Estrada Velha Rio/São Paulo (SP-66) e partes da Rodovia dos Tamoios (SP-99).

Mas o grande legado é mesmo a Estrada Real, considerada na atualidade a maior rota turística do país. São mais de 1.630 quilômetros de extensão, passando por Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Sua história surge em meados do século XVII, quando a Coroa Portuguesa decide oficializar os caminhos para o trânsito de ouro e diamantes de Minas Gerais até o porto de Parati.

Uma parte de trajeto se fazia pela sinuosa estrada Cunha-Parati (SP-171). Merece destaque também neste levantamento o histórico da primeira via de ligação do Brasil Colônia, entre a cidade de São Paulo e o litoral paulista, a Calçada do Lorena, primeira via de ligação a contar com planejamento técnico e engenharia.

pasta 2016-07-07-17-31-18 577e91e646822 temporario

Com mais de dois mil anos, o Caminho de Peabiru tem três mil quilômetros de extensão e passa pelos estados do Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. A trilha também está presente no Paraguai, na Bolívia e no Peru. É uma via transcontinental pré-colonial que ligava os oceanos Pacífico e Atlântico, utilizada por diferentes povos indígenas, e depois pelos viajantes e conquistadores europeus. Esta rota servia para percorrer longas distâncias em espaços selecionados que passaram por adaptações para facilitar o trânsito a pé, com ajuda de animais e/ou embarcações, cortando alguns rios. (Fonte: http://www.95fmcuritiba.com.br/ noticias/listar/1398/135/historia-do-parana---sobre-o-caminho-de-peabiru)

Foi por esse trajeto feito apenas no dorso de mulas, que Dom Pedro, em 1822, viajou de Santos para São Paulo para proclamar a independência. Aberta em 1790 por determinação do governador da capitania de São Paulo, Bernardo José Maria de Lorena, as obras de construção ficaram sob a responsabilidade do Brigadeiro João da Costa Ferreira, engenheiro da Real Academia Militar de Lisboa.

Concluída em 1792, a Calçada do Lorena tinha a extensão de 50 quilômetros, reduzindo em cerca de 20% o percurso anterior entre Santos e São Paulo. Esse trajeto utilizou parte da antiga rota dos tupiniquins, conhecida como o Caminho do Padre José, em alusão a Anchieta.
O calçamento foi feito em pedras levadas pelos escravos e nas curvas do trecho de serra, caixas de dissipação desviavam, para fora da via, as águas conduzidas pelos canais pluviais. Foi este o primeiro caminho a possibilitar o trânsito de tropas transportando mercadorias consumindo apenas dois dias de trajeto. O que remanesce da Calçada está tombado e preservado pelo Patrimônio Histórico, ficando aberto à visitação turística em passeios monitorados a partir de um acesso existente na (SP-148), a velha Rodovia Caminho do Mar.

Nessa estrada há um belvedere construído a mando de Washington Luiz, em 1922, chamado Recanto da Maioridade. Muitos pensam que ali morou a Marquesa de Santos, mas isso não é verdade. A Via Anchieta (SP-160), foi inaugurada em 1948 e a primeira perna da Rodovia dos Imigrantes (SP-170), em 1976. A pista de descida da Nova Imigrantes só ficou pronta em 2004.

Há outros “caminhos de índio”, como a Rota do Peabiru, (na língua tupi, "pe" – caminho; "abiru" - gramado amassado), formado por antigas trilhas utilizadas por indígenas sul-americanos muito antes do descobrimento do Brasil. Algumas versões dão conta que esses caminhos teriam sido abertos pelos incas provenientes da Bolívia em busca de uma ligação do continente com o Oceano Atlântico e não o inverso.

Hernâni Donato, que escreveu a biografia do bandeirante Antônio Raposo Tavares, informa que a designação Caminho do Peabiru foi empregada pela primeira vez pelo jesuíta Pedro Lozano em sua obra, "História da Conquista do Paraguai, Rio da Prata e Tucumán", no início do século XVIII. Relatos obtidos em documentos levantados por outros historiadores dão conta que Martim Afonso de Sousa, fundador da Vila de São Vicente, tinha informações sobre a existência desse caminho dos incas, tendo enviado uma expedição de portugueses em busca dessa rota, em 1° de setembro de 1531.

Ponte-Presidente-Dutra temporario

Vista aérea da Ponte Presidente Dutra. À esquerda, a antena da, hoje, extinta TV Ajuricaba. Foto: Correia Lima. Acervo: Eduardo Braga.

Só mais tarde, entretanto é que Antônio Raposo Tavares, já no século XVII, completaria o trajeto chegando até Quito, no Equador. Sua rota, serviria de inspiração para a abertura de novos caminhos mais tarde utilizados pelos tropeiros do século XIX, originando a Estrada São Paulo/ Paraná (1922-1954) que hoje leva o nome de Rodovia Raposo Tavares (SP-270) com 652 quilômetros de extensão, cujo início se dá no bairro do Butantã, na capital paulista atravessando o Estado até chegar ao município de Presidente Epitácio, na divisa com Mato Grosso do Sul.

O trajeto dessa estrada, entretanto, não segue a trilha original do Peabiru. Na década de 1970, uma equipe coordenada pelo professor Igor Chmyz, da Universidade Federal do Paraná, identificou cerca de trinta quilômetros remanescentes da trilha original, em território paranaense. Mais recentemente, a mesma universidade passou a desenvolver trabalhos para tornar esse trecho do Caminho do Peabiru em atração turística, na tentativa de seguir o exemplo do Projeto Estrada Real, iniciado em Minas Gerais.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).

Mais artigos...

  1. Decreto oficial de D. Leopoldina formalizando a Independência do Brasil foi queimado no incêndio do Museu Nacional
  2. Os 100 anos da gripe espanhola e o boato da neve em São Paulo
  3. Os 60 anos da Bossa Nova e as reflexões sobre o destino da Música Popular Brasileira
  4. Dia do Mundial do Rock virou festa dos “coroas”
  5. Reflexões sobre a Revolução Constitucionalista de 1932
  6. Alegria da garotada, o futebol de botão é agora esporte sério
  7. Os 80 anos do “novo” Viaduto do Chá
  8. Capelas que ajudam a contar a história do Grande ABC e de São Paulo
  9. Em São Paulo a tradição das capelas segue mantida
  10. O Dia Mundial do Rádio e as confusões do carnaval
  11. Dançarinas de aluguel que atuavam nos taxi-dancings de São Paulo
  12. Era uma vez um repórter aéreo na noite do réveillon
  13. Lendas e Verdades sobre o Natal
  14. Alguém ainda duvida que Elvis não morreu?
  15. Greve Geral há cem anos traz reflexões sobre o momento atual
  16. Jânio Quadros volta a ser assunto na cidade após entrega dos “Arcos”
  17. Machado de Assis e os 178 anos de um texto que não envelhece
  18. Os 50 anos do disco mais emblemático dos Beatles
  19. Conheça os fatos que marcaram a fatídica noite de 23 de maio de 1932
  20. Os 80 anos da Rádio Bandeirantes e a democracia no Brasil
  21. São Paulo com suas ruas e bairros de nomes polêmicos
  22. São Paulo de Todos os Tempos e o sentido de respeito à cidade
  23. O fim da Rádio Estadão é só um pedaço da crise instalada na mídia
  24. Há 150 anos o trem chegava a São Paulo
  25. Bravo Maestro, ou Maestro Bravo?
  26. Belém ou Belenzinho? Eis a questão
  27. “Novos Cangaceiros” agem no interior do Nordeste como nos tempos de Virgulino Ferreira, o “Lampião”
  28. Memórias de um repórter aéreo no aniversário da cidade
  29. A estrela sobe
  30. Circulando de carro por uma São Paulo que não volta mais
  31. Um passeio na história paulistana para quem visita a Liberdade
  32. Os 50 anos do álbum Revolver e a curiosa história de Eleanor Rigby
  33. Na festa da Rádio Nacional preocupação e saudades
  34. Paralimpíadas prometem marcar história no Brasil
  35. Morre o policial criador do Museu do Crime
  36. A curiosa passagem de um cronista inglês pelo Brasil de 1927
  37. Postura do povo paulista em 32 é exemplo para nossos dias
  38. Narrações esportivas da Copa 50 são doadas ao Museu do Futebol
  39. Vamos falar da Mooca?
  40. Os reis do futebol
  41. Esculápios, Boticas e Misericórdias na Piratininga D’Outrora
  42. A magia da vida nas canções de Gal Costa
  43. Conheça a verdadeira história da Revolução Constitucionalista
  44. A Era do Rádio
  45. São Paulo mantém mas não preserva a lenda do DC-3
  46. Os 20 anos do Windows 95 e o museu brasileiro do computador
  47. 50 anos depois a Jovem Guarda já é vista com melhores olhos
  48. Estados Unidos reabrem embaixada com festa e desconfiança
  49. Constellation: uma viagem aérea e musical pelo Rio de Janeiro antigo
  50. Há 60 anos surgia a fábrica de sonhos de Walt Disney
  51. Da maioridade de Dom Pedro II aos dias atuais, o Brasil sempre foi um país de “pedaladas”
  52. Marisa Monte reconhecida entre as melhores da MPB
  53. Estatuto da Pessoa com Deficiência: agora começa luta para qualificar a mão de obra
  54. A verdadeira história da Revolução Constitucionalista
  55. Marreco jogou melhor no tricolor do que Pato e Ganso
  56. Maria Bethânia: quinta melhor voz da MPB em todos os tempos
  57. Você já foi chamado de “coxinha”?
  58. Descubra o que São Paulo perdeu visitando acervo digital
  59. Descubra o que São Paulo perdeu visitando acervo digital (2)
  60. Livro e exposição resgatam chegada do zepelim ao Brasil
  61. Arqueólogas descobrem no Rio caminho secreto de Dom Pedro I
  62. Mostra desvenda a figura do Morgado de Mateus
  63. Em novo livro Gilles Lapouge declara seu amor ao Brasil
Mais Lidas

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/storage/0/5e/4e/jornalempresasenegoc/public_html/modules/mod_sp_facebook/mod_sp_facebook.php on line 84

Rua Vergueiro, 2949, 12º andar – cjto 121/122
04101-300 – Vila Mariana – São Paulo - SP

Contato: (11) 3043-4171