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Teatro Kabuki reúne transgressão e perenidade na cultura japonesa

A história do teatro Kabuki, gênero artístico surgido no Japão no século 17, e sua adaptação à sociedade atual, com aparições em espetáculos musicais e filmes, é analisada em artigo publicado pela revista Estudos Japoneses

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Gênero artístico surgido no Japão durante o século 17, teatro Kabuki adaptou-se à sociedade atual; popularidade é atestada pela presença em espetáculos musicais e filmes, combinando o toque velado de transgressão e a inovação contstante. Foto: Pixabay-CC

Jornal da USP/Revista da USP

No Kabuki, os atores em cena expressam arroubos de sentimento e atitudes visíveis na interpretação por vezes exagerada, em contraponto à discrição e à suavidade que estão entre as características da cultura japonesa.

Apesar das mudanças ao longo do tempo, o texto aponta como aspectos do Kabuki que permanecem nos dias de hoje o ator e sua relação com o público, “o toque velado de transgressão e a inovação constante, corroborando o Kabuki como um teatro popular do seu início até a contemporaneidade”. O artigo relata que o Kabuki começou com as apresentações de dança e música em público de Okuni, uma sacerdotisa japonesa do século 17, que se vestia imitando um homem.

Atualmente, o Kabuki é um teatro para todos os públicos, que aos poucos se sofisticou como “teatro clássico japonês” e, no Ocidente, pela música diferente, a maquiagem carregada e os figurinos coloridos, é tido como um teatro “exótico”. O ocidental estranha o mie – a “pose” durante as peças, o momento em que o ator para por um instante em seu movimento, com a técnica que põe em evidência toda a expressividade – e o nirami, em que o olhar fixo de ambos os olhos do ator vira-se para o meio do rosto, tornando sua pose mais impactante.

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Atualmente, participação feminina no Kabuki é considerada, porém mantendo a posição dos onnagatas, homens representando papel de mulheres, nas apresentações. Foto: Meredith P./Wikimedia Commons

Devido à associação entre prostituição e algumas atrizes do Kabuki, somente homens tinham a permissão de atuarem nesse tipo de representação teatral. A partir daí o Kabuki buscou um estilo próprio. O texto aponta que os ideogramas que formam a palavra “kabuki” significam “canto”, “dança” e “talento”, mas, no começo, partiu-se do verbo “kabuku”, que significa “ser excêntrico”, “desviar-se de uma norma”, “devassidão”.

A dança do Kabuki lembra o movimento rítmico dos trabalhadores nas plantações de arroz ou na pesca, ou seja, é produto da realidade de uma população. Um pouco desprestigiado no início do século 20, o Kabuki se recuperou após o fim da Segunda Guerra Mundial e, em 2016, a personagem virtual Hatsune Miku, um dos maiores ícones pop da música no Japão, participou de um show chamado Chôkabuki, ou o “SuperKabuki”.

Com os meios de comunicação de massa revolucionando a cultura, “que futuro terá, então, o assim reconhecido teatro clássico japonês?”, questiona o artigo, ressaltando que “a chave para a sobrevivência é a transformação”, a “adaptabilidade”, “referindo-nos a esta característica do gênero kabuki: a de se transformar para continuar a existir”. A representação teatral aponta, na verdade, o limite entre a cultura-fonte e o ponto da cultura-alvo – esse é o instante em que as duas culturas se cruzam, é a representação real e total do Kabuki.

A participação de um personagem virtual no show SuperKabuki tem como público-alvo não apenas os estrangeiros, mas os japoneses que fazem de Hatsune Miku um ídolo tecnológico, tão famoso como foram os atores do Kabuki tradicional. Hoje, no Kabuki, observa-se o cruzamento de diferentes gerações e até de culturas.

Um bom exemplo é o trabalho realizado por Kirk Nishikawa Dixon, um ator de Kabuki mestiço, um tabu para considerável número de japoneses, mas que acabou por divulgar o Kabuki aos estrangeiros. Atuou no filme The Lion (2014), em que aborda justamente a questão da “identidade híbrida de um ator dividido – ou multiplicado?” – em duas culturas, de acordo com o texto, “uma transgressão”.

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Teatro Kabuki teve seu surgimento com as apresentações de dança e música realizadas em público de Okuni, uma sacerdotisa japonesa do século 17 que se vestia imitando um homem. Foto: Free-images.com

De acordo com o artigo, o surgimento dos onnagatas, nos séculos 17 e 18, homens representando papel de mulheres, também é considerado uma transgressão, no caso da cultura japonesa, mostrando que, conforme aponta o historiador norte-americano Andrew Gordon, “identidade de gênero, pelo conceito moderno, não está no corpo, mas é o resultado mutável da performance”. Por outro lado, os onnagatas só surgiram porque as mulheres foram proibidas de atuar, muito devido à ligação com a prostituição.

Hoje, a participação feminina no Kabuki vem sendo considerada, porém mantendo a posição dos onnagatas nas apresentações, assim como estão sendo aceitos atores sem tradição Kabuki. Alternando transgressão e adaptabilidade, é a relação de magia e encantamento do teatro Kabuki com o público que o torna atemporal, conclui o texto.

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