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Qual foi o legado dos projetos para a Copa em São Paulo?

Estudo aponta que planos de desenvolvimento para a região de Itaquera são bons, mas incompletos

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Complexo viário construído ao lado da arena. Melhoria que a comunidade no entorno aprovou.

O casario e o conjunto habitacional do bairropode ser visto em Itaquera:
sustentabilidade e gentrificação em pauta.

 

Elaborados a partir dos investimentos executados para a realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, em 2014, os planos de desenvolvimento sustentável da região contida na Microbacia do Córrego Jacu, onde está localizado o bairro de Itaqueara, na periferia de São Paulo, contemplam em boa medida as aspirações da população local. A despeito disso, aspectos importantes para alcançar os objetivos traçados, como a definição de políticas públicas destinadas à melhoria da educação e ao combate à gentrificação, fenômeno que provoca a alteração do perfil imobiliário e força a saída dos moradores mais pobres do lugar, não foram considerados nas propostas. A constatação é da dissertação de mestrado do engenheiro civil André Ferreira Overa, defendida na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp, sob a orientação do professor André Munhoz de Argolo Ferrão.


De acordo com Overa, o objetivo da pesquisa não foi analisar diretamente o legado deixado pelos investimentos realizados para viabilizar a Copa de 2014, mas sim compreender as perspectivas de desenvolvimento almejadas pela população e verificar se os planos contemplam esses anseios. “Queríamos avaliar exclusivamente se esses planos atendiam ou não as aspirações das pessoas que vivem naquela faixa da cidade de São Paulo”, explica. No trabalho, o engenheiro civil considerou os principais pontos de três documentos: Operação Consorciada Rio Verde-Jacu, Plano Diretor Estratégico de São Paulo e Plano de Bacia do Alto Tietê, de modo a abarcar projetos nas áreas econômica, social, cultural e ambiental.

Dito de modo simplificado, os três planos definem ações de planejamento de diversas ordens e abrangências. Estas abarcam desde questões relativas à drenagem e uso da água até a definição de áreas para a implantação de pontos comerciais, passando por propostas de melhoria da mobilidade urbana. “A partir do levantamento desses pontos, nós entrevistamos os principais atores envolvidos com a realidade e a dinâmica da região, para verificar se suas necessidades estavam consignadas nos planos elaborados a partir dos investimentos executados para a Copa”, reafirma Overa.

Entre os atores ouvidos estavam moradores, comerciantes, corretores imobiliários, gestores públicos, urbanista etc. Estes foram separados em três grupos: Desenvolvimento Esportivo, Desenvolvimento Urbano e Governança. Ao cruzar as determinações contidas nos planos com as manifestações dos entrevistados, o pesquisador diz ter constatado que as propostas presentes nas políticas públicas formuladas para a região atendem a boa parte das demandas da população local. Nem por isso, entretanto, os documentos podem ser considerados perfeitos. “São bons planos, mas que precisam ser aperfeiçoados em alguns aspectos”, avalia Overa.

Um ponto fundamental que não está considerado nas propostas, conforme o autor da dissertação, é a definição de mecanismos que possam combater a gentrificação. O fenômeno ocorre com certa frequência em regiões que recebem investimentos para abrigar megaeventos como é o caso do Mundial de Futebol. Com a valorização imobiliária decorrente do desenvolvimento local, as famílias mais pobres normalmente são forçadas a se mudar, pois não conseguem mais arcar com a elevação significativa dos preços dos aluguéis. “Segundo os entrevistados, esse problema foi verificado nas imediações de Itaquera. Muitas famílias tiveram que deixar o bairro e se transferir para o que podemos considerar uma ‘nova periferia’”, relata.

Uma maneira de evitar esse tipo de evasão, diz Overa, é estabelecer políticas públicas na área de habitação que favoreçam a população mais vulnerável. Outro assunto que não é sequer citado nos planos de desenvolvimento da Microbacia do Córrego Jacu é a educação. “Curiosamente, o tema também não foi mencionado pelos atores entrevistados durante a realização da pesquisa. A dissertação também deixou de fazer referência a essa importante dimensão, o que foi observado pelos membros da banca avaliadora, no momento da defesa. Obviamente, a educação tem impacto significativo em várias outras áreas e precisa contar com políticas públicas que a qualifiquem e a ampliem”, declara o engenheiro civil.

Uma das formas de melhorar estes e outros planos de desenvolvimento de uma dada região, no entender de Overa, é democratizar a participação da sociedade nas discussões que antecedem a elaboração das propostas. “Não adianta convocar a população para participar de uma audiência pública que será realizada daqui a uma semana. Antes, é preciso capacitar as pessoas para que elas possam contribuir de forma efetiva para a definição das diretrizes e projetos. Isso pode ser feito, por exemplo, oferecendo cursos e promovendo palestras, de modo a estimular a reflexão dos moradores sobre a realidade na qual vivem”, sugere o autor da dissertação, que contou com bolsa de estudos concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), agência de fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) (Jornal da Unicamp).

 

Legado: o desafio dos grandes eventos esportivos

Charles Schramm (*)

Quando planejado e realizado adequadamente, um grande evento esportivo pode proporcionar ao país ou à cidade sede a oportunidade de se promover globalmente, aprimorar o perfil econômico e transformar a infraestrutura urbana e desportiva

Por outro lado, é inquestionável que as complexidades para sediar uma competição aumentaram exponencialmente nos últimos anos. A imensa quantidade de atletas, suas necessidades, as demandas da mídia, as expectativas do público e as orientações e os critérios técnicos apresentados pelas federações internacionais, pelos órgãos reguladores e pelos detentores de direitos contribuíram para colocar um peso ainda maior de preocupações sobre o anfitrião.

Esses fatores citados potencializaram o custo da preparação e o valor dos investimentos necessários para a organização atender aos requisitos de todas as partes envolvidas. Dessa forma, as questões relacionadas ao retorno financeiro de sediar um evento estão cada vez mais em pauta. É evidente que qualquer competição de nível mundial causará impactos sobre o local, mas estes podem ser, com grande frequência, negativos diante da falta de planejamento. E é com o objetivo de provar que sediar um evento traz benefícios a longo prazo que o termo “legado” vem sendo altamente utilizado.

Diante disso, surgem cada vez mais evidências de que os pontos de aprendizado, a partir de grandes eventos esportivos anteriores estão sendo incorporados pelos licitantes e pelos organizadores. Em uma era de intensas verificações dos investimentos feitos por órgãos reguladores e de uma visibilidade na mídia, participar de uma licitação para sediar uma grande competição que requeira a construção de um estádio, uma arena, um velódromo, um centro aquático ou uma pista de corrida pode ser difícil de ser justificado.

Isso é verdade, especialmente, quando a possibilidade de atrair investimentos do setor privado é limitada. Nesse contexto, uma estratégia clara de legado para os locais onde acontecerão as competições, baseada em um entendimento das tendências de mercado após o evento e das instruções detalhadas de elaboração e planejamento, é de extrema importância para garantir o impacto positivo.

Dessa maneira, é extremamente importante estar atendo a alguns sinais que podem direcionar e indicar o sucesso do evento e seus benefícios para a sociedade. Primeiramente, é essencial aprender com a experiência. Com um número cada vez maior de especialistas, os quais possuem conhecimento e vasto know-how comprovados, os licitantes têm acesso a uma ampla gama de consultores que podem ajudá-los a maximizar o impacto de eventos específicos.

Também é importante pensar em utilizar as boas novidades que o aperfeiçoamento dos serviços oferece. Soluções temporárias estão cada vez mais sendo consideradas como uma alternativa condizente com a realidade no que tange à construção de locais permanentes não desejados. Os avanços em aspectos técnicos estão em um nível tão elevado que ter uma experiência em uma disputa realizada dentro de uma estrutura temporária não pode mais ser considerada inferior à que se teria em um local de eventos permanente. Os especialistas do setor acreditam que componentes modulares desempenharão um papel cada vez maior, trazendo um conjunto de vantagens significativas, incluindo a possibilidade de tais locais serem reutilizados e/ou reciclados após o evento.

Ao mesmo tempo, é preciso levantar questões em relação à postura dos detentores de direitos. Iniciativas, como a Pauta Olímpica 2020 do COI, estão incentivando e esclarecendo a crescente importância do legado para os órgãos desportivos influentes. Outros detentores de direitos também demonstram valorizar a utilização do local para a sustentabilidade a longo prazo da infraestrutura desportiva.

Entretanto, será interessante observar se os detentores de direitos e as federações internacionais estão dispostos a seguir em frente, talvez mostrando maior flexibilidade em relação aos requisitos técnicos, passando a envolver-se mais no processo de tomada de decisão a respeito de qual tipo de local deve ser construído, ou demonstrando um envolvimento potencialmente maior na estratégia pós-evento dos locais utilizados.

O resultado do surgimento do “legado” é que as discussões e soluções em relação ao tema devem ser tópicos constantes e proeminentes nas pautas de todos os licitantes e organizadores. Em termos de locais para a realização de eventos, é dever das partes interessadas apresentar uma estratégia clara, baseada em um entendimento das condições de mercado nas quais provavelmente operará quando a competição tiver sido concluída e com uma solução de legado colocada na dianteira da fase de planejamento de uma infraestrutura desportiva.

(*) - É sócio da KPMG no Brasil.

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