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Campos do Jordão: epidemia de tuberculose deu origem à cidade sanatório que hoje é destino turístico

Desde o final do século 19, a região de Campos do Jordão (SP) já recebe muitos visitantes

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Campos do Jordão. Foto: Rodrigo Soldon – Wikimidia Commons via Flickr

Luiza Caires/Jornal da USP

Mas a atual imagem de turistas em jantares românticos na Serra da Mantiqueira tem pouca relação com um período em que cada um precisava ter os próprios copos e talheres nomeados em restaurantes e hospedarias, para diminuir o risco de transmissão de uma doença mortal. Naqueles tempos, o clima de altitude era sim parte dos atrativos, mas os visitantes o procuravam por um motivo diferente do turismo: tratar a tuberculose.

Considerado terapêutico pelos médicos do período, esse clima gradualmente transformou o pequeno povoado “nos Campos do Jordão” em um centro urbano direcionado para receber pacientes em sanatórios, pensões e até residências. Quem resgata esta história é Ana Enedi Prince na série de livros Tuberculose e História. O terceiro volume – Estância Climatérica de Campos do Jordão: Sanatórios e Pensões e a Luta contra a Tuberculose – mostra como a região era procurada por pacientes, de vários locais do País e de fora dele, infectados pela Mycobacterium tuberculosis (bacilo de Koch). Na época, a tuberculose era responsável por quase 70% das mortes por doenças infecciosas no País e, desde 1880, já havia indicação da chamada “climatoterapia” pelo médico Clemente Ferreira, umas das vozes mais ativas na luta contra a doença, inspirado pela medicina germânica e dos tradicionais sanatórios na Suíça.

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Foto: Arquivo pessoal

A pesquisadora Ana Enedi Prince.

A série de publicações teve origem nas pesquisas da historiadora durante pós-doutorado realizado na USP, A Fase Sanatorial de Campos do Jordão, como fundamento do Desenvolvimento Posterior do Município (1874-1950), com supervisão de José Eduardo Mauro. Mas o tema já vinha sendo explorado desde sua tese de doutorado, também defendido na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que abordou o período sanatorial de São José dos Campos.

Atualmente, Ana Enedi Prince é coordenadora do curso de História da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), que, em parceria com a prefeitura da estância, recuperou e organizou em arquivo documentos históricos utilizados no estudo. A publicação de um quarto volume, Campos do Jordão e sua Vocação Turística, está prevista para o final de 2019.

O contexto
Para compreender como ocorreu o crescimento de Campos do Jordão é preciso conhecer o chamado período sanatorial do distrito (nomeado em homenagem ao Brigadeiro Jordão), que se tornaria município. Mas também é necessária a contextualização do “fenômeno” Campos do Jordão fora dos seus limites geográficos. Por isso, a historiadora voltou-se para as circunstâncias que conduziram ao grave estado epidêmico da tuberculose no País, investigando como isso se deu nos dois níveis, estadual e nacional. “O crescimento do burgo de Campos do Jordão se tornou uma consequência do que ocorria nos dois outros níveis, transformando a localidade, pelos seus atributos, em uma expectativa de alívio para os sofrimentos causados pela doença, e até de sua cura”, analisa ela.
Recompondo o quadro histórico, a pesquisadora também buscou verificar o grau do conhecimento científico do período e entender como as dificuldades atingiam diferentes grupos sociais, determinando a adoção de estratégias variadas. Até a década de 1930, não havia uma política preventiva organizada: apesar de representar 69,4% das mortes por doenças infecciosas, não havia sido implementada uma profilaxia contra a tuberculose. Contra a hanseníase (lepra), que fazia apenas 4% dessas vítimas, já estavam sistematizadas ações profiláticas. “A partir de 1931, o governo de São Paulo organizou uma estrutura administrativa no campo da higiene, adotando medidas profiláticas para evitar a expansão da doença, ajudando na construção e aparelhamento de hospitais para tratar pessoas pobres infectadas, fornecendo remédios, alimentos e moradias para indigentes”.

Nesta parte da pesquisa, ficou claro como a administração pública e o setor privado uniram esforços. “O combate à tuberculose se fortaleceu com as ações governamentais, a criação de associações beneficentes, a participação de entidades religiosas e leigas, e a organização de ligas de combate à moléstia”, explica a pesquisadora.

No segundo volume da série, a autora revela que a estruturação de Campos do Jordão em centro de tratamento envolveu a construção da estrada de ferro (1914) – indispensável para o acesso de pessoas e materiais para urbanização e construção de hospitais – e a criação de órgãos de apoio, como o primeiro Dispensário de Tuberculose, a Associação Evangélica Beneficente, a Legião Brasileira de Assistência e a Bandeira Paulista contra a Tuberculose, todas dedicadas ao atendimento de pessoas sem recursos financeiros que procuravam a localidade em busca do tratamento.

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 Vila Abernéssia, Campos do Jordão em 1930 – Foto: Reprodução do livro Campos do Jordão, a Joia da Mantiqueira, de Pedro Paulo Filho.

“A Bandeira Paulista foi uma entidade filantrópica fundada por um grupo de senhoras da elite paulistana comandadas pela Leonor Mendes de Barros, esposa do Ademar de Barros. Ao contrário do que alguns dizem, não eram só pessoas ricas que iam se tratar em Campos do Jordão, enquanto pobres iriam para São José dos Campos. Campos do Jordão recebeu sim um grande contingente de pessoas sem recursos que tiveram tratamento”, esclarece Ana Prince, salientando que, num período anterior, até mesmo escravos eram enviados por seus senhores à região para tratar a tuberculose.

Após a Segunda Guerra Mundial, com a descoberta da penicilina, a procura pela Serra da Mantiqueira com finalidade terapêutica foi diminuindo. Atualmente, a climatoterapia já é considerada superada pela medicina. Gradativamente, porém, as pensões criadas para receber os pacientes deram lugar a hotéis e residências de férias. Muitas pessoas que iam com as famílias fazer tratamento acabavam ficando na cidade mesmo após se curarem.

“Em um congresso sobre climatologia em Paris, no ano de 1957, Campos do Jordão ganhou o título de ‘Suíça Brasileira’. Revistas da época, como Claudia e Cruzeiro, começaram a estampar anúncios enaltecendo a região como ideal para descanso e combate ao estresse, etc. Os reflexos aparecem também na arquitetura da cidade, inspirada nas cidades europeias”, conta a historiadora.

O resgate das fontes
Para este estudo, foram coletados e analisados dados dos seguintes documentos: “Procedência dos Doentes Atendidos pela Bandeira Paulista Contra a Tuberculose, no período de 1947 a 1955”; “Guias de Sepultamento, no período de 1933 a 1948”; e “Livro de Registro de Doentes das Pensões, no período de 1926 a 1941” , todos localizados no Arranjo Arquivístico do Núcleo de Preservação de Fontes Históricas Locais e Regionais (NUPHIR). O Arranjo foi organizado em uma parceria da Univap com a Prefeitura Municipal da Estância de Campos do Jordão, tendo José Eduardo Mauro como coordenador e Ana Prince como vice-coordenadora, além da supervisão técnica da professora da USP Heloisa Liberalli Bellotto, especialista em arquivística.

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Santa Casa de Campos do Jordão – Foto: Reprodução do livro Campos do Jordão, a Joia da Mantiqueira, de Pedro Paulo Filho

O trabalho se iniciou pela documentação mais antiga, o que foi “necessário diante do estado lastimável em que se encontrava essa documentação”, conta Ana Prince. Incluem-se aí documentos relacionados aos primórdios da instalação da Prefeitura Sanitária, estabelecida em 1926, antes da criação do município, em 1933. “Essa massa documental remonta à fase em que Campos do Jordão ainda era um afastado povoado, até se tornar distrito de São Bento do Sapucaí. O processo se concentrou neste material até que se esgotasse a documentação em estado precário.”

Desse modo, surgiram bem cedo nesses lotes mais antigos de papeis fontes históricas de interesse, relativas às origens do pequeno burgo. Tais documentos foram pacientemente higienizados, restaurados, identificados e armazenados.

Também se mostraram de grande utilidade obras de memorialistas locais e fontes levantadas por esses trabalhos, “com farta citação de documentos, obras e depoimentos colhidos de pessoas e famílias que participaram do processo de formação do centro urbano, bem como mapas antigos, coleções de slides e outros objetos”, detalha a professora. “Em muitos casos, ao pesquisar as fontes locais, o memorialista também se esforçava para salvar da destruição referências preciosas para a história da região”, explica.

O lançamento do volume 4 – Campos do Jordão e sua Vocação Turística, está previsto para o final de 2019, mostrando a transformação do município em cidade terapêutica em cidade turística. “Meu foco de interesse continua sendo os assuntos relacionados à saúde em geral e, em particular, à história das doenças infecciosas ocorridas nos séculos 19 e 20. Assim, a série poderá comportar, no futuro, novos projetos e resultar na publicação de outros volumes”, anuncia a autora.

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