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Alunos com tendência antissocial buscam segurança na escola

Pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP acompanhou durante um ano alunos do 2º ao 5º ano do Ensino Fundamental de uma escola do interior paulista. O objetivo foi conhecer a dinâmica do comportamento antissocial numa instituição de ensino e a relação estabelecida entre esses alunos e membros do colégio, especialmente professores

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A tendência antissocial pode dificultar o desenvolvimento emocional.

Marília Fuller/Agência USP de Notícias

Em seu estudo de doutorado, a pedagoga Daniela Oyama utilizou como referência os conceitos do psicanalista Donald Woods Winnicott para traçar o perfil do comportamento antissocial dessas crianças, com o objetivo de possibilitar que a escola pudesse oferecer um ambiente mais favorecedor ao seu desenvolvimento. A pesquisa Comportamento antissocial na escola: Um estudo a partir da teoria de D. W. Winnicott foi orientada pela professora Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian.

“Fiz o mestrado na Faculdade de Educação da Unicamp e, durante a pesquisa na escola, me chamou a atenção a questão da violência dentro do ambiente escolar”, revela Daniela. Segundo a pesquisadora, os professores relatavam a violência presente no dia a dia da escola – agressões de alunos contra alunos, professores e funcionários – e fora dela, em seu convívio familiar. “Muitos dos professores, inclusive, também demonstravam medo de alguns pais de alunos”, relata.

Segundo Daniela, o comportamento antissocial é a manifestação clínica da tendência antissocial. Ela explica que, de acordo com Winnicott, a tendência antissocial pode ser uma dificuldade inerente ao desenvolvimento emocional. As manifestações clínicas da tendência antissocial variam desde a gula até perversões, delinquência e, no extremo, a psicopatia. Muitas de suas manifestações nos estágios iniciais são tratadas com êxito pelos próprios pais.

Há sempre duas direções na tendência antissocial, mas uma delas pode ser predominante à outra: uma é tipicamente representada pelo furto associado à mentira e a outra, pela destrutividade. “Para Winnicott, na origem da tendência antissocial há uma ‘deprivação’ sofrida pela criança, a qual se refere à perda de um ambiente bom após uma boa experiência inicial, a perda de uma pessoa amada ou de um ambiente seguro".

A pesquisadora relata que a criança deixa de se sentir livre e sua vida instintual torna-se inibida ou dissociada dos cuidados oferecidos a ela. Contudo, caso haja alguma chance de se encontrar novamente o ambiente seguro perdido, a criança passará a testar a confiabilidade do ambiente por meio de seu comportamento antissocial. “Portanto, seu comportamento é um sinal de esperança, um pedido de ajuda da criança”, completa.

Crianças deprivadas são inquietas e incapazes de brincar. A tendência antissocial pode ser uma dificuldade inerente ao desenvolvimento emocional e por isso suas manifestações podem estar presentes na escola. Daniela aponta que a escola pode minimizar tais comportamentos, mas precisa compreender sua origem e o pedido de ajuda da criança. Ela explica que, se o ambiente for estável, forte e seguro o suficiente, a criança poderá experimentar novamente seus impulsos, especialmente os agressivos.

670px-Be-Antisocial-Step-01-Version-2 temporarioNa pesquisa, a metodologia utilizada foi a clínico-qualitativa. Para realizar a pesquisa, durante um ano letivo, Daniela observou intervalos e aulas, verificou registros no Livro de Ocorrências de Alunos da escola e participou passivamente de reuniões de Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC). Além disso, a pesquisadora realizou entrevistas individuais e conversas informais com direção, professores, funcionários e pais ou responsáveis de alunos, fazendo encontros semanais com três alunos indicados pela escola os quais aparentavam ter comportamento antissocial.
O estudo permitiu à pesquisadora descrever a forma como um típico aluno com tendência antissocial cobrava que o ambiente suportasse seus impulsos agressivos e como estabelecia a relação com os adultos na escola, assim como a mudança em seu comportamento durante o ano, apesar de algumas pessoas não a notarem. Daniela conseguiu observar a melhora de outros alunos acompanhados na pesquisa e constatar como um bom ambiente proporcionado por seus professores pode gerar mudanças no comportamento dos alunos e, possibilitando que eles retomassem seu processo de desenvolvimento emocional.

“Instituições como a escola têm a chance de ajudar um aluno com tendência antissocial por meio do manejo do ambiente. A escola, como instituição, poderia proporcionar aos professores um espaço de aprofundamento e discussão sobre a teoria e sobre as dificuldades que eles enfrentam no relacionamento com seus alunos.”, completa. Daniela ressalva a importância de conversar e ouvir esses profissionais, acolher suas angústias e ajudá-los em suas dificuldades.

 

Rede social muda vida de jovens em liberdade assistida

Pesquisa na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP constatou que a rede social é essencial para adolescentes em liberdade assistida (LA)

Raquel Duarte/Agência USP de Notícias

De acordo com a enfermeira Marilene Rivany Nunes, autora da pesquisa, com a rede social, esses adolescentes formam uma nova visão de mundo, que ultrapassa o nível da criminalidade. Ela ainda oferece a real possibilidade de mudança por meio da educação, da profissionalização”.

Segundo Marilene, nesse contexto, a liberdade assistida foi fundamental para promover o convívio social desses adolescentes e os ajudou a evitar a reincidência de atos infracionais. “A pesquisa deixou evidente que, para os adolescentes, a formação da rede social proporcionada pela liberdade assistida, teve papel essencial, pois, sem ela, eles poderiam se envolver em situações de maior vulnerabilidade ou contravenção, além de não conseguirem levar adiante suas vidas, já que uma de suas principais razões de ser refere-se exatamente ao apoio que recebem”.

Para a pesquisadora, o papel da família e do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), do interior de Minas Gerais, para o restabelecimento de um renovado convívio social, possibilitou novos projetos de vida, desvinculados de práticas delituosas, exatamente como propõe a medida socioeducativa de liberdade assistida. “Os adolescentes mostraram-se receptivos ao vínculo com uma figura feminina, com destaque para a mãe, e com o CREAS. Eles criaram vínculos fortes com diferentes membros e instituições, o que possibilitou o controle da conduta infracional dos adolescentes em liberdade assistida”.

O resultado desses vínculos, diz Marilene, é a possibilidade desses adolescentes construírem uma trajetória de vida saudável, responsável e distante do crime. Neste sentido, as análises revelaram que tanto a família como a equipe do CREAS ofereceram mecanismos de auxílio no processo de adolescer, como, por exemplo, apoio emocional, carinho, escuta ativa, aconselhamento, regulação da conduta”, disse Marilene. A pesquisadora lembrou que os profissionais que executam a liberdade assistida, já fazem parte das redes sociais dos adolescentes de forma afetiva e significativa. “Tudo isso permite ao adolescente mudar sua história de sua vida. O CREAS se destacou no sentido de auxiliar o adolescente a perceber novas possibilidades de vida”, enfatiza.

Papel do enfermeiro

Para o estudo, Marilene contou com a participação de 26 adolescentes, com idade entre 13 e 18 anos, que cumpriam medida socioeducativa de Liberdade Assistida no CREAS, durante três meses. Os resultados foram obtidos por meio de entrevista semiestruturada, dividida em duas partes, uma com dados dos participantes, como idade, sexo, escolaridade entre outros, e um questionário com nove questões, abordando sobre a rede social dos adolescentes. A partir disso, houve construção de mapas de rede dos participantes para conhecer ela melhor.

Outro dado que chamou a atenção da pesquisadora foi o fato de os adolescentes em liberdade assistida não apresentarem vínculo com o enfermeiro. Esses profissionais são essenciais para o adolescente em liberdade assistida que comete a prática abusiva de uso de álcool, uma vez que eles podem praticar ações específicas de infrações. “O consumo de álcool pode ser visto como uma atitude constante do grupo que tais adolescentes pertencem. Sem contar que o uso de álcool traz prejuízos para a saúde. É nesse momento que os enfermeiros são fundamentais”, explica Marilene.

Marilene diz que é necessária a atuação do enfermeiro ao lado de outros profissionais de saúde e educação, para fortalecer a relação com o infrator. “A articulação dos serviços e da equipe de saúde, bem como dos profissionais da educação, torna-se essencial para transformar o quadro de vulnerabilidade e com isso efetivar os direitos dos adolescentes no contexto do cumprimento da medida socioeducativa de liberdade assistida”, analisou Marilene.

A rede social, diz a pesquisadora, formada pelos adolescentes, mostrou-se uma boa referência para se compreender o desenvolvimento desses adolescentes e como os diferentes atores, setores e componentes da rede podem interferir nesse processo”, concluiu a pesquisadora. A tese Rede social de adolescentes em liberdade assistida: um estudo exploratório, foi defendida na EERP em maio de 2015, com orientação da professora Marta Angélica Iossi. Segundo a pesquisadora, o estudo será publicada na Revista Brasileira de Enfermagem, na primeira edição de 2016.

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