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Livro traz críticas ao negacionismo do Genocídio Armênio

A coletânea '100 Anos do Genocídio Armênio – Negacionismo, Silêncio e Direitos Humanos 1915-2015' reúne artigos de estudiosos que ajudam a compreender esse que é um dos episódios mais trágicos da história da humanidade – o Genocídio Armênio, a matança de 1,5 milhão de armênios pelo governo turco-otomano, entre 1915 e 1917

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Refugiados armênios aguardando distribuição de comida após a chegada ao Hospital Militar Americano, em Paris, no dia 13 de agosto de 1918. Letycia Bond/Agência Brasil

Claudia Costa/Jornal da USP Fotos: Coleção American National Red Cross. Biblioteca do Congresso de Washington D. C. EUA

Organizada por Maria Luiza Tucci Carneiro, Carlos Eduardo de Abreu Boucault e Heitor de Andrade Carvalho Loureiro, a obra é uma publicação da Editora Humanitas e constitui um dos raros títulos que abordam o tema em língua portuguesa.

“O estudo do Genocídio Armênio é de importância atemporal para o entendimento dos motivos, causas, consequências e prevenção do ‘crime dos crimes’. Houve genocídios antes, como parte de guerras, imperialismo ou colonialismo, mas havia algo novo no caso armênio. Esse foi um evento no qual um governo intentou aniquilar seus próprios cidadãos, na expectativa de resolver os problemas públicos do país”, afirma George Shirinian, diretor executivo do International Institute for Genocide and Human Right Studies Zoryan Institute, de Toronto, no Canadá, na orelha do livro.

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Mulher armênia e suas filhas caminham em direção a Karpet (Harput), após assassinato de seu marido durante o massacre de 1894-1896.

Em mensagem também publicada no livro, o embaixador da República da Armênia no Brasil, Ashot Galoyan, diz que em 2015, ano em que se completaram os 100 anos do Genocídio Armênio, “a mobilização dos armênios em torno do tema levou ao mundo um debate muito profundo sobre a necessidade de reconhecer o massacre perpetrado pelo Império Otomano como o que de fato ele foi: um genocídio. O primeiro do século 20, como bem definiu o papa Francisco”.

Como afirmam os organizadores no texto de apresentação, o livro foi publicado in memoriam aos 1,5 milhão de armênios vítimas das matanças em massa, definidas pelos estudiosos como a gênese do genocídio moderno. “O livro dá continuidade à justa reivindicação em defesa dos direitos humanos, condena com convicção o genocídio e incentiva o diálogo com outras minorias que também passaram por genocídios”, disse a professora Maria Luiza Tucci Carneiro, uma das organizadoras da obra. E continua: “Há um círculo muito grande de intelectuais pensando a questão e sustentando esse debate até hoje, considerando que o Genocídio Armênio não foi reconhecido pela Turquia”, ressalta.

O livro, diz a professora, ajuda a rememorar especialmente a questão da Turquia, que continua com uma política agressiva em relação à Armênia, além de alertar a atual e as futuras gerações para eventos com essa dimensão, que colocam em questão a dignidade humana, ao mesmo tempo que reafirma a postura da USP como local de discussão de fatos históricos. Os artigos analisam o genocídio armênio sob os pontos de vista jurídico, sociológico e histórico, versando sobre direitos humanos, crimes contra a humanidade e direito internacional.

O jurista José Gregori, que foi secretário nacional dos Direitos Humanos (1997-2000) e ministro da Justiça (2000-2001), escreve em seu artigo que os países integrantes da ONU devem reconhecer e proclamar o fato histórico do Genocídio Armênio. “A conduta do Império Otomano não foi de um governo que, no campo aberto de uma luta, peleja para que seu opositor seja vencido e capitule. O de que se tratou foi de um verdadeiro banditismo internacional travestido em razão de Estado que, na solércia, executou uma matança em massa”.

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Crianças armênias diante de orfanato, em imagem recebida em outubro de 1918.

O artigo do professor Daniel Damásio Borges delineia a institucionalização dos tribunais ad hoc, fato que resultou na criação do Tribunal Penal Internacional, a partir do Estatuto de Roma, segundo o qual o genocídio se inclui entre as modalidades de crime contra a humanidade. O Estatuto de Roma, do qual o Brasil é signatário, representa um avanço nas medidas de proteção a grupos humanos alvos de perseguição, na medida em que busca a responsabilidade penal de Estados que sejam autores de crimes internacionais.

Já o artigo do professor Carlos Eduardo de Abreu Boucault trata da resistência do governo turco em reconhecer os atos de genocídio contra o povo armênio. Segundo ele, a justificativa inaceitável repousa no argumento de que a população armênia foi vítima de guerra civil e dos desdobramentos da Primeira Guerra, quando, na verdade, a primeira onda de massacres contra a comunidade armênia e seu patrimônio e legados desencadeou-se no final do século 19, agravada pela ação do partido dos “jovens turcos”, cuja ideologia pregava uma ordem modernizante.

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Viúvas armênias e seus filhos, entre 1919 e 1920.

Para Haig Apovian, presidente da União Geral Armênia de Beneficência, que assina o prefácio do livro, “o estudo e a compreensão dos fatos ocorridos há mais de 100 anos, durante o Genocídio Armênio, são fundamentais para prevenir que crimes contra a humanidade voltem a ocorrer, principalmente em momentos de crescimento de ódio e intolerância contra minorias, como infelizmente o mundo continua presenciando até os dias de hoje”. O embaixador da República Armênia no Brasil, Ashot Galoyan, reitera: “O que nós fizermos hoje, decisões que tomarmos no sentido de apaziguar os conflitos, reconhecer os erros e respeitar as diferenças, marcará o futuro. A Armênia quer a paz, a verdade e o reconhecimento de sua história”.

O livro '100 Anos do Genocídio Armênio – Negacionismo, Silêncio e Direitos Humanos 1915-2015' expressa o resultado de palestras e debates promovidos por várias instituições do Estado de São Paulo, entre elas a USP, a Universidade Presbiteriana Mackenzie e a Universidade Estadual Paulista (Unesp).

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