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A extrema direita pode chegar ao poder na União Europeia?

As eleições europeias de 2019 vêm ganhando atenção especial da imprensa por causa da perspectiva de um crescimento inédito da extrema direita eurocética, mas até onde os autoproclamados "soberanistas" podem chegar?

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As pesquisas mostram que os nacionalistas e eurocéticos poderão novamente se sair bem nas urnas em vários países. Foto: Yves Herman/Reuters

 

As pesquisas para o pleito que renovará o Parlamento Europeu são unânimes em mostrar que a direita ultranacionalista conquistará sua maior bancada na história do bloco. Por outro lado, como as eleições acontecem em 28 Estados-membros com realidades e anseios diferentes, é difícil projetar se isso será suficiente para alterar de alguma forma os rumos da política europeia.

As bancadas no Parlamento da UE são formadas por grupos supranacionais, constituídos, por sua vez, por partidos que existem apenas dentro das fronteiras de cada Estado-membro. O Partido Popular Europeu (PPE), por exemplo, que hoje detém a maior bancada, abriga sob o mesmo guarda-chuva desde a conservadora União Democrata-Cristã (CDU), da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, até o ultranacionalista Fidesz, do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, passando pelo Força Itália (FI), de Silvio Berlusconi.

Outra unanimidade das projeções eleitorais é que o PPE deve manter a maior bancada no Parlamento Europeu, porém com uma queda considerável em relação a seus atuais 217 eurodeputados - o site Politico prevê 169 cadeiras para os conservadores; o jornal Financial Times, 171. A grande novidade das eleições deve estar na briga pela segunda posição. Historicamente, a UE é governada por uma coalizão entre o PPE, de centro-direita, o grupo Socialistas e Democratas (S&D), de centro-esquerda, e a Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (Alde), de centro.

Essas três forças detêm a maioria no Legislativo e dividem os cargos de poder do bloco, com predomínio dos conservadores, que chefiam a Comissão Europeia (Jean-Claude Juncker), o Conselho Europeu (Donald Tusk) e o Parlamento Europeu (Antonio Tajani). A diplomacia europeia, por outro lado, está nas mãos de Federica Mogherini (S&D), enquanto as influentes comissárias para Comércio, Cecilia Malmstrom, e Concorrência, Margrethe Vestager, pertencem à Alde.

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Matteo Salvini e Marine Le Pen participam de comício em Milão. Foto: ANSA

É aí que reside o grande objetivo da extrema direita eurocética: conquistar a segunda maior bancada e acabar com a maioria em poder de PPE, S&D e Alde. Com isso, os "soberanistas" esperam ser chamados à mesa de negociações com os conservadores e ocupar cargos de destaque em Bruxelas.

"Faço parte de um bloco forte como nunca, não de direita, mas alternativo aos burocratas, e espero que ele possa dialogar com os conservadores para deixar a esquerda de fora", disse o ministro do Interior e vice-premier da Itália, Matteo Salvini, durante uma visita recente à Hungria. As projeções mostram que tal meta não é fácil de se alcançar. Segundo o Politico, PPE (169), S&D (146) e Alde (106) devem conquistar 421 assentos, número mais que suficiente para continuar governando a UE. Já o Financial Times fala em 419 cadeiras: 171 para o PPE, 151 para o S&D e 97 para a Alde.

Esses números já incluem os possíveis resultados do República em Marcha, partido do presidente da França, Emmanuel Macron, que ainda não pertence a nenhum grupo, mas deve aderir à Alde. Ambas as projeções apontam uma queda significativa em relação aos atuais 472 eurodeputados dos três grupos, mas as grandes forças europeístas do bloco continuariam compartilhando o poder.

Atualmente, os partidos eurocéticos estão divididos em dois grupos. O maior é a Aliança Europeia dos Povos e das Nações de Salvini, antigo Europa das Nações e da Liberdade, que reúne as principais legendas de extrema direita do bloco, da italiana Liga ao francês Reunião Nacional, de Marine Le Pen. O outro é o Reformistas e Conservadores Europeus (ECR), que engloba o espanhol Vox, o polonês Lei e Justiça (PiS), o Partido do Povo da Dinamarca, entre outros. Representantes de algumas legendas integrantes do ECR participaram de um comício liderado por Salvini em Milão e confirmaram a intenção de formar uma única coligação eurocética, a Aliança dos Povos e das Nações.

Pelas projeções de Politico e Financial Times, a aliança de Salvini (74 e 55) e o ECR (59 e 57), juntos, somarão, respectivamente, 130 e 112 assentos, números que, no primeiro caso, os colocariam na briga com os sociais-democratas. Essa combinação não inclui a provável votação expressiva do partido Brexit, do Reino Unido, mas o país, ao menos em teoria, não ficará na UE até o fim da próxima legislatura. Por outro lado, não é certo que todos os partidos dos dois grupos se unam em uma grande coalizão de extrema direita. O ultranacionalismo polonês e dos países da antiga Cortina de Ferro, por exemplo, veem com desconfiança a proximidade de Salvini e Le Pen com a Rússia.

Além disso, a extrema direita dos países mais ricos, como Alemanha, Áustria e os escandinavos, questionam os problemas orçamentários do governo da Itália, que, com apoio da Liga, aumentou o déficit e a dívida pública (a segunda maior do bloco) para financiar uma expansão de despesas (ANSA).

UE: começou a eleição mais importante para o parlamento

Deutsche Welle/ABr

Os europeus iniciaram ontem (23) os quatro dias de votação para o Parlamento Europeu, que influenciarão não apenas a política feita em Bruxelas nos próximos cinco anos, mas também, até certo ponto, a própria existência da União Europeia (UE). Em 2014, nacionalistas contrários ao projeto de unificação europeia dobraram sua presença no legislativo europeu. Eles lideraram também a votação no Reino Unido e, dois anos depois, se consagraram vitoriosos no referendo que determinou a saída britânica do bloco comunitário europeu.

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Ativista contra o Brexit deixa colégio eleitoral em Londres. Foto: EPA

Cinco anos depois, as pesquisas mostram que os nacionalistas e eurocéticos poderão novamente se sair bem nas urnas em vários países, incluindo o Reino Unido, a Itália, a Hungria e a França. Mas há também reveses para esse grupo. O Brexit ainda está para acontecer – ou pode nem mais vir a ocorrer. A extrema direita chega à eleição europeia atingida pelo escândalo de conluio do agora ex-vice-chanceler federal da Áustria Heinz-Christian Strache com uma suposta sobrinha de um oligarca russo interessado em comprar favores.

E também outros populistas que chegaram ao poder nacional têm de lidar com simpatizantes desiludidos. Isso vale especialmente para a coalizão italiana, formada pela xenófoba Liga e o antissistema Movimento Cinco Estrelas. O projeto de união europeia também enfrenta desafios externos, que incluem um presidente dos Estados Unidos que corteja os populistas da Europa e impõe tarifas a aliados e a ascensão econômica da China.

Mas, ao que tudo indica, os partidos políticos pró-europeus, que buscam ações comuns em questões como comércio, segurança, imigração ou meio ambiente, deverão continuar dominando o Parlamento Europeu, mesmo se for com uma maioria menor. Jean-Claude Juncker, que será substituído como presidente da Comissão Europeia após as eleições, alertou para os perigos de uma crescente onda de nacionalismo, e não apenas nas margens da sociedade.

Os principais partidos que promovem a integração da economia da zona do euro têm lutado para capturar a atenção de um público cansado das elites políticas. O presidente da França, Emmanuel Macron, descreveu a eleição atual como "indubitavelmente a mais importante" desde a primeira, realizada em 1979, e pediu a cooperação de conservadores, social-democratas e verdes para enfrentar as forças contrárias à UE.

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