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“É importante que as pessoas não esqueçam o que aconteceu”

Reprodução

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Sinagoga em Wielka, na Polônia, antes de ser queimada pelos nazistas na noite de 14 de novembro de 1939.

Após a Segunda Guerra Mundial, Kiwa Kozuchowicz, um judeu polonês sobrevivente do Holocausto, quis esquecer sua experiência nos campos de concentração

Claudia Costa/Jornal da USP

Ele ficou anos evitando lembrar do ocorrido, até que, em 1993, foi chamado para testemunhar no julgamento de Siegfried Ellwanger Castan, escritor e fundador da Editora Revisão, que lançou livros no Sul do Brasil negando o Holocausto. Castan foi condenado por injúria e a partir daí Kozuchowicz mudou sua atitude, afirmando que “é importante que as pessoas não esqueçam o que aconteceu”.

Kiwa Kozuchowicz nasceu em 1º de outubro de 1922 em Pakanow, uma pequena cidade no centro da Polônia, e aos 17 anos teve sua vida atravessada pela guerra. Sua filha, a psicóloga Rosana Kozuchowicz Meiches, escreveu o que soube do Holocausto pelo seu pai no livro Nos Campos da Memória. A obra acaba de ser reeditada pela Editora Humanitas em segunda edição – a primeira foi lançada em 2012 – e integra a coleção Testemunhos, organizada pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer) do Departamento de História da FFLCH da USP.

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Rool call, representação da contagem no campo, gravura de Jan Komski, s.d.


A participação de Rosana no Arqshoah, Arquivo Virtual sobre o Holocausto e Antissemitismo, projeto do Leer, foi o que a incentivou a concretizar a ideia de publicar a história de seu pai, suas memórias de infância na Polônia e seu testemunho das atrocidades ocorridas no período nazista. Como conta Rosana, o livro foi escrito a partir de relatos pessoais feitos de pai para filha, durante o ano de 2009.

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Prisioneiros durante inspeção no campo de concentração de Buchenwald, data indefinida.

“Foram longas conversas registradas eletronicamente, várias delas na presença de minha mãe, que, ao serem transcritas, foram tomando a forma de um livro de memórias”, escreve na apresentação do livro. Apesar das extensas e abrangentes rememorações, como ela diz, foi possível organizar os fatos espacial e cronologicamente. “Circulamos entre os lugares, fomos e voltamos no tempo. Somente à custa de insistência obtive os relatos sobre a família, memórias de infância, os primeiros tempos da guerra e a separação dos Kozuchowicz”, informa.

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A Barracks for Men, gravura de Jan Komski, s.d.

Rosana contou com a colaboração de pesquisadores do Instituto Yad Vashem, em Israel, e do International Tracing Service (ITS), em Bad Arolsen, na Alemanha, para validações de fatos e nomes, e do United States Holocaust Memorial Museum, nos Estados Unidos, para fornecimento das imagens dos campos. O resultado é uma narrativa minuciosa das memórias de Kozuchowicz sobre o cotidiano violento, a burocracia dos campos, a convivência com os colegas prisioneiros e oficiais alemães. Seu depoimento também fez parte da série Nos Campos do Holocausto, que foi exibida no Discovery Civilization e produzida para marcar os 70 anos do final da Segunda Guerra.

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Ficha de prisioneiro de Kiwa Kozuchowicz, em que constam registrados a atividade de “pedreiro”, o carimbo de saída de Auschwitz, com data de 26 de janeiro de 1945, e o carimbo de entrada no campo de Natzweiller, em 3 de março de 1945.

“Enquanto sobrevivente do Holocausto, Kiwa Kozuchowicz carrega consigo uma identidade numérica: a de judeu tatuado no antebraço com o número B513. Como prisioneiro, atendia pelo número 120942, outra forma de desumanização imposta pelo regime totalitário do Terceiro Reich, que, enquanto Estado moderno, ampliou ao máximo o controle sobre a população polonesa”, relata a professora da USP Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Arqshoah do Leer, no prefácio do livro. “Do fundo de sua alma desprende-se o sabor amargo de ter sido obrigado a usar uma tarja sobre a sua roupa com a estrela amarela de David. Tristes lembranças a partir de 1º de setembro 1939”.

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Em 1941, começou para Kozuchowicz a trajetória de horror pelos campos de morte na Polônia e na Alemanha, onde conseguiu sobreviver a situações-limite. Em outubro de 1942, já com 20 anos, ele chegou ao campo de trabalhos forçados de Skarzysko, com seu irmão Shloime. Em 1944, depois de passar por alguns campos de trabalho escravo e de o irmão ser morto pela SS numa tentativa de fuga, Kozuchowicz chegou a Auschwitz, o maior de todos os campos de concentração estabelecidos pelo regime nazista e, segundo ele, a pior viagem de trem de sua vida. “Descemos do trem. Dezenas de soldados alemães nos cercaram. A confusão era geral: judeus ortodoxos rezavam, crianças abraçadas por suas mães, um cenário estarrecedor: gritos, violência e judeus sendo surrados.”

Kozuchowicz lembra ainda da seleção e do medo de ser encaminhado para as câmaras de gás. “Sentados à mesa, os médicos apontavam o lado para o qual deveríamos ir. À direita ou à esquerda. Tranquilizei-me por ver que a maioria dos que estavam do meu lado tinha aparência saudável. Imaginei que eu devia ter esse semblante também, há tempos não me olhava no espelho.” Os prisioneiros passaram pela “desinfecção”, ou seja, por grandes tinas com água gelada e desinfetante, e depois pelo salão dos chuveiros. “Não se viam canos de gás, nem se sentia seu cheiro. Finalmente, saiu água”, conta, relembrado ainda que ali perto estavam os fornos crematórios. “Não conseguíamos vê-los, pois estavam escondidos por ramos altos de arbustos e folhagens. No entanto, fumaça preta e o mau cheiro denunciavam a morte premeditada como ‘solução final’.”

Com o término da guerra, Kozuchowicz permaneceu na Alemanha. “Fui a Varsóvia, na Polônia, mas não a Pacanów, pois ainda era perigoso para os judeus andar pelas cidades pequenas da Polônia.” Em 5 de fevereiro de 1949, partiu para o Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro, em pleno Carnaval, e em março seguiu para São Paulo; casou-se, teve dois filhos, Silvio e Rosana, e seis netos. Atualmente, mora com sua mulher em São Paulo. “Apesar das dificuldades em reconstituir este relato, enfatizo que nós, filhos dos sobreviventes da Shoah, somos herdeiros dessa memória. Suas marcas nos foram transmitidas como um legado para a história do povo judeu e a história do Holocausto”, afirma Rosana. A professora Maria Luiza ressalta que o seu testemunho é valorizado como um ato fundamental para o estabelecimento da verdade histórica.

“Muitos me perguntam como pudemos suportar tudo o que passamos durante a guerra. Penso que a cada momento, como um bom judeu, eu esperava o Messias. Esperávamos que a qualquer hora alguma coisa acontecesse para nos salvar. Infelizmente, demorou muito. Os russos demoraram, os americanos demoraram. Mas eu decidira esperar, não me entregaria. Acredito que sobrevivi por sorte, por puro acaso simplesmente, assim como os grãos que restam ao acaso numa peneira, quando se peneira qualquer coisa”, diz Kozuchowicz. O livro, acrescenta, traz lembranças de tempos sombrios, tempos de intolerância sem limites. “Conto uma história que não é só minha, mas de muitos que se foram, todos sem lápides”.

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