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Uma desnecessária operação de guerra

Madrugada de 17 de dezembro de 1968, quatro dias depois da decretação do Ato Institucional nº 5, o AI-5 de triste memória

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Rolando de Freitas/Ag.Estado via CAP-FFLCH

Barreira na entrada do Crusp em 1968.

Especial/Jornal da USP

Com tanques e movimentos de combate, soldados se deslocando de árvore em árvore, protegendo-se atrás de morretes e bancos de cimento, o Exército cercou o Conjunto Residencial da USP – o Crusp. O AI-5 abria o período mais repressivo do regime de 64. Os cruspianos previam que seriam um dos alvos nesse novo momento. Mas o aparato militar se mostrou totalmente desproporcional e desnecessário.

Todos os moradores se entregaram pacificamente. Foram presos, colocados em ônibus e conduzidos para o Presídio Tiradentes, no centro velho de São Paulo. O Crusp nasceu a fórceps. Projetado como conjunto residencial na Cidade Universitária para os estudantes da USP, só foi construído diante da necessidade de abrigar os atletas que participaram dos Jogos Pan-Americanos de 1963, realizados em São Paulo. Após o encerramento da competição, foi ocupado pelos estudantes para que cumprisse a finalidade para a qual fora concebido: abrigar alunos de fora da capital paulista ou que morassem distante do campus, sem condições de bancar sua moradia durante a duração de seus cursos.

Naqueles cinco anos iniciais de funcionamento, 1963-68, o Crusp, além de viabilizar a possibilidade de seus moradores cursarem a Universidade, funcionou como o espaço no qual muitos, se não a maioria, vindos de ambientes com horizontes culturais estreitos, abriram-se para o mundo e novas vivências existenciais e culturais. Boa parte, não todos, engajou-se em debates e atividades políticas criativas, transformadoras e de contestação à repressão imposta ao País a partir de 1964 — que desaguaram nas grandes manifestações de 1968, ano síntese do engajamento da juventude do País e do mundo em prol da liberdade e da justiça social.

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CAP-FFLCH/Ag.Estado

Estudantes durante invasão do Crusp.

Durante todo o período, passaram pelo Crusp em torno de 2.500 estudantes. No dia da ocupação pelo Exército, cerca de 1.400 alunos moravam oficialmente no conjunto residencial, sendo que aproximadamente 800 estavam em seus apartamentos na madrugada de 17 de dezembro, pois muitos já haviam viajado para suas cidades de origem para passar o Natal e o Ano Novo com suas famílias.

A maioria saiu rapidamente da prisão, alguns passaram longa temporada nela, quase sempre sem quaisquer explicações. E trataram de reconstruir suas moradias pelos bairros de São Paulo, todos com grandes dificuldades – e continuar seus estudos, quando possível. O tempo ajudou a maioria a superar as dificuldades, mas uns poucos sucumbiram ao brusco corte que o fechamento do Crusp representou em suas vidas.
Ao contrário do que se propagava e passou erroneamente para a história, o Crusp era um espaço em que os moradores viviam como os demais estudantes, apenas gozando de mais liberdade e do privilégio de terem uma moradia a que não teriam acesso com seus próprios recursos, pois eram, na quase totalidade, de famílias de fora da capital, do Estado e até mesmo do exterior. Ali estudavam, namoravam, jogavam baralho, frequentavam o restaurante, a Banca da Cultura, o Bar do Crusp, dançavam nos bailes, praticavam esportes, assistiam e faziam teatro, shows e muitas assembleias para discutir como atuar sobre o momento político que se acinzentava a cada dia.

Havia uma minoria politicamente mais ativa e barulhenta, mas boa parte dos moradores se dedicava a estudar, estudar e estudar, mas solidários com o que ocorria à sua volta. A minoria ativa era umbilicalmente ligada à pauta do movimento estudantil: a questão dos “excedentes” nos cursos da Universidade, estudantes que haviam alcançado a média para a admissão nas escolas, mas o número de vagas era insuficiente; os protestos contra o acordo MEC-USAID, que visava a americanizar o ensino universitário brasileiro; a reforma universitária, para democratizar o poder na academia; a oposição ao regime autoritário.

Houve momentos de tensão, atritos com o CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, e a polícia, mas sem graves consequências. Depois da Batalha da Maria Antonia, o Crusp passou a concentrar as atividades estudantis que agitavam a então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – FFCL. Foi ponto de encontro de muitos dos estudantes que foram ao Congresso da UNE, em Ibiúna. Havia quem defendesse que a reunião acontecesse nas suas dependências. Mas venceu a desastrosa ideia de realizá-lo em Ibiúna. Toda essa movimentação alimentou a lenda de que o Crusp era um bunker que resistiria à toda e qualquer invasão policial, daí a exagerada operação militar montada para o 17 de dezembro.

Quando às suas reivindicações eram contrapostas negativas injustificadas, os cruspianos se movimentavam para torná-las viáveis. Assim se deram as ocupações dos blocos F e G para acolher mais estudantes, pois estavam prontos para uso, mas permaneciam fechados; a pressão sobre o ISSU-Instituto de Serviço Social da USP, por melhorias no atendimento; o gerenciamento da lavanderia pelos alunos; a resistência à derrubada dos blocos I, J e H.

A vivência no Crusp, naquela época, deixou na maioria dos seus moradores, hoje na casa dos 70 anos de idade, há algum tempo já avós, quase todos com carreiras profissionais bem-sucedidas, a lembrança de terem vivido em um espaço privilegiado, em um momento especial e tumultuado, que marcou, para sempre, sua existência e o modo de ver o mundo. Esse era o sentimento de 500 ex-cruspianos que, há dez anos, se reuniram no 40º aniversário do fechamento do Crusp, para rememorar a vivência única que compartilharam.
Tinham a clara consciência de que foram beneficiários de um projeto de residência estudantil posto em pé graças às suas próprias iniciativas. Mas que um dia foi fechado arbitrariamente por um regime politicamente conservador e retrógrado, empenhado em sufocar a liberdade e os ricos debates que ali se travavam. Aos poucos, mesmo ao longo da conflituada década de 1970, o Crusp foi reaberto, recebendo inicialmente apenas pós-graduandos e, com o passar do tempo, novamente os alunos de graduação necessitados de residência estudantil. Hoje, além do Crusp, a USP também oferece aos alunos apoio financeiro para locação de moradias.

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Reprodução / Agência Estado

Anúncio em cadeia nacional: à mesa o ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, e o locutor da Agência Nacional, Alberto Curi,  anunciam o AI-5 no salão principal do Palácio Laranjeiras.

Um ato – e a democracia brasileira entrou em sua noite mais longa

“Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.” A frase, já bem conhecida, foi dita pelo então ministro do Trabalho Jarbas Passarinho durante a 43ª reunião do Conselho de Segurança Nacional em dezembro de 1968 – e é bem representativa.

Porque ao debaterem durante aquele encontro o texto final do quinto ato institucional que o governo militar iria baixar, todos os 24 homens presentes naquela reunião vetusta – sob a liderança do marechal-presidente Arthur da Costa e Silva – estavam mandando “às favas” não só os escrúpulos de consciência, mas a própria democracia brasileira, já bem dilapidada desde 31 de março de 1964.

Quando o ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, e o locutor oficial Alberto Curi leram pela TV para um País perplexo e amedrontado o texto do AI-5 na noite daquele dia 13 de dezembro de 50 anos atrás, uma sexta-feira, a mais pesada e plúmbea noite baixava sobre o País. Uma noite que iria durar dez anos.

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