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Capoeira busca reconhecimento social junto a jovens de escolas públicas

Pesquisa realizada na Faculdade de Educação levou a prática a três escolas públicas da cidade de São Paulo. Entre os objetivos, o resgate histórico e a busca de reconhecimento da luta

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Foto: Portal Aprendiz - Uol

Antonio Carlos Quinto/Jornal da USP

E a capoeira foi para a sala de aula. Não apenas em busca de um reconhecimento social, mas para levar ao conhecimento de jovens estudantes a sua história e sua importância na formação de gerações de jovens afrodescendentes. “A capoeira como uma prática ancestral pode contribuir para a formação de gerações desses jovens. Está na lei!”, enfatiza o educador Valdenor Silva dos Santos, citando as Leis Federais 10.639/03 e 11.645/08. Enquanto a primeira (10.639/03) versa sobre o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no currículo escolar, a segunda (11.645/08) torna obrigatório o ensino da história e culturas afro-brasileira, africana e indígena, em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.

E foi com base na legislação que Santos desenvolveu sua pesquisa de mestrado na Faculdade de Educação (FE) da USP, A Roda de Capoeira e seus Ecos Ancestrais, sob orientação da professora Mônica Guimarães Teixeira do Amaral, da FE. “O principal objetivo foi resgatar historicamente a prática dessa arte e enfatizar a necessidade de se buscar reconhecimento. Para isso, nada melhor do que fazer esse trabalho junto aos jovens, introduzindo a capoeira no cotidiano escolar”, descreve o educador. Capoeirista há mais de 50 anos, o educador partiu então para seu estudo, na prática, em três escolas públicas de São Paulo. Na forma de docência compartilhada ele levou a estudantes de escolas públicas suas experiências pessoais e de seu cotidiano com a capoeira. “Claro que houve também o objetivo de combater o racismo e estimular a relação étnico-racial entre alunos e professores”, conta o educador, que nas rodas de capoeira é conhecido como “Mestre Valdenor”.

Meus estudos constataram a negação de nossa história e culturas africanas e afrodescendentes, dos principais personagens negros, assim como de suas contribuições, que foram fundamentais em nossa história. Pude identificar diversas lacunas ao longo de minha pesquisa.

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Estudo constatou a negação da história e das culturas africanas e afrodescendentes – Zumbi dos Palmares. Foto: Wikipedia Commons


Os heróis negros
Após uma longa pesquisa bibliográfica para organizar seu “conteúdo teórico paro o estudo”, Santos passou às atividades práticas nas escolas públicas. “Meus estudos constataram a negação de nossa história e culturas africanas e afrodescendentes, dos principais personagens negros, assim como de suas contribuições, que foram fundamentais em nossa história. Pude identificar diversas lacunas ao longo de minha pesquisa”, conta o educador. Foi daí que surgiu a ideia de expor aos estudantes alguns “heróis negros” que poucos deles conheciam. A docência compartilhada de Santos foi implantada para alunos do ensino público, de 14 a 17 anos, da Escola de Aplicação da USP – que fica no campus Butantã, em São Paulo –, na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Amorim Lima, também no Butantã, zona oeste, e na EMEF Saturnino Pereira, no bairro de Guaianazes, na zona leste.

Bom lembrar que a princesa Isabel tinha uma guarda pessoal formada por negros, todos exímios capoeiristas.
Por cerca de três anos, uma vez por semana, o capoeirista comparecia às “aulas compartilhadas” nas matérias de história, língua portuguesa, educação física e geografia. “Em todas essas disciplinas havia a inserção da cultura afro-brasileira e de princípios da capoeira”, afirma.

Dentre as estratégias do educador capoeirista para chamar a atenção dos estudantes, no início das aulas, ele fixava nas paredes fotos de heróis negros, alguns deles relegados pela historia oficial. Personagens como Zumbi dos Palmares, Machado de Assis e Castro Alves, entre outros. E também alguns “ilustres desconhecidos”, como Luiza Mahin, uma das estrategistas na Revolta dos Malês, que se envolveu em lutas pela libertação dos negros escravos da Bahia nas primeiras décadas do século 19. “Ela foi mãe de Luís Gama, escritor e abolicionista negro”, conta o educador. Além de Luiza, fotos de André Rebouças e Antonio Pires Rebouças, mais conhecidos como os irmãos Rebouças, eram expostas ao início de cada atividade em sala de aula.

Uma luta histórica
Em suas pesquisas o mestre Valdenor evidencia, além dos heróis negros, fatos históricos que mostram a importância da luta. “Bom lembrar que a princesa Isabel tinha uma guarda pessoal formada por negros, todos exímios capoeiristas”, narra o pesquisador. Além disso, como ele conta, muitos negros praticantes da luta entraram para a Marinha brasileira.
O marinheiro, marinheiro… marinheiro só,
Quem te ensinou a nadar… marinheiro só,
Oi foi o tombo do navio… marinheiro só,
Oi foi o balanço do mar… marinheiro só
Eu não sou daqui… marinheiro só,
Eu não tenho amor… marinheiro só,
Eu sou da Bahia… marinheiro só… de São Salvador

De acordo com o educador, a música acima é de domínio público e autor desconhecido, assim como a música Paranauê, duas das cantigas mais tocadas e cantadas nas rodas de capoeira, que têm sua origem nos negros capoeiristas que foram enviados para servir à Marinha no lugar dos jovens brancos, filhos de aristocratas.

O educador lembra que, na Primeira República, lá pelos idos de 1889, a luta foi criminalizada. Mesmo assim, a capoeira foi uma “arma” utilizada em diversos movimentos. “Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, muitos capoeiras participaram das lutas durante a Revolta da Vacina, que ocorreu em 1904”, destaca o educador. “As lutas também se deram em função de o negro, nos cultos africanos, respeitar o seu corpo como um templo”, ressalta.

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Legislação torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Sob o som da capoeira
No entender do Mestre Valdenor, o projeto foi muito bem aceito entre alunos e professores das escolas onde a experiência foi compartilhada. E isso, segundo o educador, se deu muito pelos sons característicos que acompanham as rodas de capoeira. “Os estudantes se identificaram com os sons. Uma das batidas do maculelê, utilizada também no Candomblé e que é a base da batida do funk, é um dos toques de atabaque mais tradicionais da África, o ‘Congo’”.

O som do Congo hoje está no imaginário popular em todo o mundo. E existe uma identificação, pelos jovens, desses ritmos ligados ao funk, rap, break e a capoeira. “Lembrando que o break nasce no Bronx, em Nova York, e cresce junto com uma escola de capoeira que já funcionava no local, dirigida pelo Mestre Jelon, fato este que influenciou a integração de movimentos da dança que estava nascendo (break) e da luta ancestral, nossa capoeira”, destaca Santos.

Dentre as dificuldades, ele destaca que, principalmente na periferia da cidade, há uma alta incidência de famílias evangélicas, o que fazia com que jovens oriundos destas famílias tivessem um pouco mais de resistência. “Mas é importante ressaltar que a música teve um papel relevante no estudo”.

Em virtude da influência positiva da música, o mestre Valdenor passou a ensinar os alunos a tocar berimbau. E, como não bastasse, ele desenvolveu um método que possibilita a qualquer pessoa se iniciar nos primeiros toques do instrumento. “É possível transcrever uma partitura para o instrumento, mas o método que apliquei é semelhante a um conjunto de cifras”, descreve, ressaltando que, “em apenas 15 minutos de aprendizado é possível reproduzir um dos toques”. O método permite tocar ritmos dos dois estilos da luta: a Capoeira de Angola e a Capoeira Regional.

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