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Antonio Carlos Lopes (*)

Saúde é - ao menos deveria ser - uma política de Estado e não um programa de partido ou, pior, uma vitrine para exclusivamente ganhar voto em eleição.

Entra governo, sai governo, as promessas se repetem, mas não se cumprem. Os mais atingidos pela negligência e falta de interesse da classe política com o assunto são os brasileiros, em especial os mais vulneráveis socialmente, que seguem, de mãos atadas, esperando por um milagre. Dia após dia, surgem novas notícias em termos da falta de assistência à população. As mais recentes dizem respeito ao Mais Médicos, lançado em 2013 como a tábua de salvação para a saúde do País.

A despeito de suas fragilidades, a iniciativa, mal e mal, possibilitou atendimento em saúde em locais mais remotos. Ocorre que, faz tempo, a iniciativa entrou em colapso. E o novo governo, a exemplo dos anteriores, falhou. Garantiu que iria suprir as vagas dos médicos cubanos com profissionais brasileiros, só que a promessa foi mais uma a não vingar.

A falta de condições adequadas para o bom exercício da profissão, juntamente com a instabilidade e outra série de desacertos, acabou por afastar nossos profissionais de Medicina. Prova disso são as mais de mil desistências que aconteceram entre os inscritos neste mês de abril. A conclusão disso? É simples: a falência do programa não está baseada na resistência dos médicos em se afastar dos grandes centros e capitais.

Os números comprovam que temos profissionais dispostos a ir aos pontos mais distantes com o intuito de oferecer assistência de qualidade à população, porém não existe estrutura para recebê-los, deixando a prática da boa Medicina totalmente comprometida. Nossos médicos estão sendo boicotados pela falta de compromisso com a saúde, por parte das autoridades, e de políticas consistentes.

Hoje, os problemas se acumulam. No sistema público, por exemplo, não temos equipamentos em quantidade suficiente e nem de boa qualidade. Os recursos humanos são desvalorizados e, além de tudo, a insegurança crescente afasta os profissionais que se encontram na linha de frente do atendimento. Atualmente, o Conselho Federal de Medicina (CFM) realiza campanha que aborda a violência contra os médicos, visando estimular o registro do boletim de ocorrência para que não haja impunidade.

Quando entramos no campo suplementar, vemos a velha queda de braço dos planos de saúde contra os prestadores de serviços e pacientes. Coberturas são negadas, médicos são pressionados a reduzir exames custosos, procedimentos de maior complexidade e, ainda, a evitar internações. Lucro é a prioridade e é mínimo o espaço que sobra à saúde. Algo de uma desumanidade sem fim.

Em termos de formação, novas faculdades de qualidade duvidosa se multiplicam, enquanto estudantes, que investem uma fortuna para realizar o sonho de se tornarem médicos sofrem com a máfia do ensino. Trata-se de uma problemática sem fim. O péssimo nível do aprendizado oferecido por tais instituições coloca no mercado profissionais que mal sabem diagnosticar uma gripe ou diarreia.

Por tantas mazelas é que afirmo: precisamos, com urgência, rever todas as instâncias da Medicina em nosso País. Saúde é coisa séria e a população merece respeito. Está mais do que na hora.

(*) - É presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

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