Qual o sentido da vida?

Fernanda Dutra (*)

Ikigai é uma palavra japonesa que denota os prazeres e sentidos da vida. O termo consiste, literalmente, de iki (viver) e gai (razão). Na língua japonesa, pode ser usado em vários contextos e se aplicar tanto a pequenas coisas cotidianas quanto a grandes objetivos e conquistas. É uma palavra tão comum que as pessoas a usam no dia a dia de forma bem corriqueira, sem estar cientes do seu significado especial.

Encontrar seu ikigai é encontrar um sentido na vida, que pode estar atrelado a um sucesso ou a um café que se toma todos os dias pela manhã. De acordo com os autores Héctor García e Francesc Miralles, todos nós possuímos um ikigai, ou seja, a razão de ser. O ikigai está escondido em nós, e é necessária uma investigação paciente para se chegar até o mais profundo de nosso ser e encontrá-lo. Nietzsche afirmava o seguinte: “Quem tem um porquê para viver pode suportar quase todo como”.

É possível encontrar ikigai em qualquer circunstância e em qualquer coisa. Aliás, o ideal é começar pequeno, no aqui e agora. Na aceitação de si mesmo e na busca do que realmente importa para você. Quando entendemos o ikigai, percebemos que um propósito não necessariamente precisa ser algo sofisticado ou grandioso. Na verdade, tem mais a ver com um valor pelo qual viver, e isso está muito ligado ao prazer pela vida, pelo que se faz, pela companhia das pessoas que nos são próximas e pelos momentos e experiências vividos. Buscar esse sentido pode trazer um tempero especial na vida. É importante entender as preferências comportamentais, as aptidões, aquilo que é mais natural em cada um, já que isso pode facilitar na busca pelo ikigai.

Não é só uma questão de interpretação, mas também de atenção aos detalhes. Quando passo a reparar nos pequenos detalhes da vida, percebo que nada se repete e que cada oportunidade é especial. Na cultura japonesa, Ken Mogi, autor do livro Ikigai[1],conta que existe o ichigo ichie, conceito que significa literalmente “uma vez, um encontro”. Ichigo ichie é a valorização dos encontros na vida, das coisas e das pessoas: quando sou capaz de apreciar a presença de uma pessoa e ouvi-la genuinamente, ou curtir um lugar, percebendo suas nuances, sua decoração, explorando o momento. Cada ocasião em que desfruto da companhia de alguém em algum lugar é única e nunca se repete da mesma forma. Quando penso no ichigo ichie, considero que isso tem muito a ver com a forma como interpretamos os fatos, pois se vejo cada um destes como único, minha tendência é olhar para as coisas boas e valorizar e viver com plenitude cada instante.

Em seu livro Ichigo ichie, Miralles e García[2] se debruçam sobre essa filosofia japonesa e comentam, inclusive, que nas ilhas subtropicais de Okinawa, os primeiros brotos, que eles chamam de kaika, florescem em janeiro, enquanto que nas grandes cidades dos Japão, a florada acontece entre o fim de março e meados de abril. No Japão, há 96 árvores de referência que marcam o início do kaika. Para eles, metaforicamente, a magia do kaika é quando começa a florescer algo dentro de nós que desconhecíamos.

O kaika está presente no início dos romances, no início de um trabalho, no início de algo que desabrocha em você. E são nos momentos de kaika que o ichigo ichie está presente. Quando o kaika é transformador, de acordo com os dois autores, desejamos convertê-lo em mankai, isto é, esperamos que amadureça, e que aquilo que nasceu em nós se abra em toda a sua plenitude: a pessoa apaixonada que diariamente investe na relação, um livro a que nos dedicamos escrever até o final, um empreendedor que busca maneiras para que seus negócios alavanquem a cada dia, e assim por diante.

Ichigo ichie tem o sentido de que as coisas que vivemos agora não se repetem nunca mais. Há uma frase de David Thoreau que diz: “Não podemos matar o tempo sem ferir a eternidade”. Na época da dispersão absoluta, da cultura do instantâneo, da falta de escuta e da superficialidade, há como resgatar em cada um de nós a atenção e harmonia por meio do ichigo ichie. Que tal em meio a crise também? Transformar dificuldades em momentos únicos, ainda que de aprendizados!

(*) É Membro dos Empreendedores Compulsivos, é especialista em comunicação,  sócia diretora da Flyflow, palestrante, coach, artista plástica, professora e consultora de inovação em desenvolvimento humano. Co-autora do livro PNL e Coaching e autora do livro Efeito-Melão. Saiba mais em compulsivos.org


[1] Ken Mogi, Ikigai: os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz, São Paulo, Astral Cultural, 2018.

[2] Francesc Miralles e Héctor García, Ichigo ichie: a arte japonesa de transformar cada instante em um momento precioso, Rio de Janeiro, Sextante, 2019.

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