Aprendizados além-mar sobre liderança

Renato Martinelli (*)

O Brasil se autoproclama o país do futebol. Em certa medida, é verdade. Ainda somos a seleção de futebol com o maior número de títulos – pentacampeão, celeiro de talentos, com o maior jogador de toda a história. Por outro lado, paramos no tempo. Dos 7×1 pra cá, o choque de realidade nos levou a entender que a história não entra em campo, e que precisamos mais do que dribles e craques para sermos vencedores. Falta um bom percurso para voltar ao topo.

Fora de campo, também vimos uma nova safra de treinadores brasileiros tentando seu espaço e os treinadores medalhões se vangloriando de suas conquistas para garantir resultados na atualidade. Com torcidas apaixonadas e cartolas influenciados pela arquibancada, a troca de comando do time, mudando treinadores como a frequência que se muda a roupa de cama, é uma realidade criticada por profissionais, mas é a cultura instalada no futebol brasileiro. Até que chegaram os portugueses!

A escola de técnicos portugueses é famosa no mundo todo. José Mourinho, um dos maiores técnicos de sua geração, ficou mundialmente famoso pelos seus trabalhos e conquistas no Porto, Chelsea e Inter de Milão. Fernando Santos, atual treinador da seleção de Portugal, tem em seu currículo os títulos do campeonato europeu de 2016 e da copa de seleções UEFA 2018/19, inéditos para a história dos lusitanos. Como estavam distantes do continente sul-americano, os técnicos portugueses só passaram a ocupar as manchetes dos jornais com a chegada – e posteriores conquistas – de Jorge Jesus à frente do Flamengo. Antes disso, o mister já tinha conquistado títulos, com destaque a sua trajetória no Benfica, onde ocupa o cargo atualmente. Ricardo de Sá, no Vasco, e Jesualdo Ferreira, no Santos, tiveram pouco tempo para demonstrar resultados, mas traziam na bagagem um histórico de títulos também. Só que a paciência dos dirigentes brasileiros se esgota mais rápido do que uma bela taça de vinho do Porto após uma refeição. 

Nesse cenário, surge Abel Ferreira, um técnico português sem títulos de grande expressão, mas uma aposta do Palmeiras por seu perfil e estilo de trabalho. Abel também apostou no clube alviverde, com uma estrutura impecável de futebol e com um dos melhores times da América Latina. Deixar a Grécia, onde estava, para vir ao Brasil treinar o Palmeiras foi um grande desafio aceito pelo técnico português. Seria mais um a ficar pouco tempo e ser esquecido pela torcida, ou entraria na história do clube? Já sabemos o desfecho dessa história, mas quero aprofundar minha análise com a perspectiva da liderança.

Líderes – seja técnico de futebol, empresária, gerente, o cargo que for – precisam desempenhar muito bem 3 importantes papéis: liderança, gestão e desenvolvimento

LIDERANÇA – A liderança aqui é entendida no sentido de dar exemplo, motivar e inspirar as pessoas. Abel chegou com humildade ao clube, valorizando a relação com cada pessoa – do massagista ao porteiro – tratando todos com transparência e respeito. Quando chegou ao Brasil, não ficou hospedado em apart hotel, ele morou no Centro de Treinamento do clube. Entendeu a história, vivenciou os bastidores, compreendeu a cultura e o jeito de ser palmeirense. Inclusive, adotou uma frase motivacional que saiu da arquibancada e ganhou os vestiários para motivar os atletas com o “Avanti, Palestra!”. 

GESTÃO – Na parte da gestão, utiliza recursos tecnológicos para entender a performance de cada jogador, assim como usa análises para entender os adversários, como jogam e quais são suas falhas. Foi assim que ganhou do Grêmio no 1º jogo da final da Copa do Brasil, ao treinar a jogada de escanteio, pois sabia que a defesa gremista não era das melhores em relação a bolas aéreas. Seus indicadores na gestão são cuidadosamente aplicados para definir ou adaptar esquema de jogo, funções dos atletas em campo e jogadas com maior potencial de resultar em gols.

DESENVOLVIMENTO – Em relação ao desenvolvimento, Abel sempre destacou que são os jogadores que fazem as jogadas, defendem, atacam e marcam gols. Até aí, poderia ser o discurso de qualquer técnico que já vimos antes, mas, a maneira como o time é treinado, é valorizado por praticamente todo o elenco. Ou seja, o método de trabalho aplicado por Abel e sua equipe promoveu o desenvolvimento de profissionais, competências necessárias para vencer e ganhar títulos.

E a cada campeonato conquistado com o Palmeiras, fez questão de negociar com a alta liderança para garantir a premiação de profissionais que atuam nos bastidores, que não entram em campo, mas que fazem parte da equipe como um todo. Que exemplo, ó pá!

Assim como os portugueses chegaram ao Brasil em 1500 para desbravar o continente, os técnicos de Portugal passaram a ter seus trabalhos valorizados na ex-colônia nos últimos anos, abrindo espaço novamente para um novo descobrimento – do futebol moderno e da liderança contemporânea. A liderança que inspira, que adequa o estilo de trabalho para ter o melhor desempenho de cada indivíduo da equipe, e que forma pessoas para continuarem na busca pela alta performance. Essa somatória de fatores gera resultados que podem entrar para a história. Já deu certo no futebol. Que seja uma boa referência para entrar nos campos do mundo empresarial. Avanti, Líderes!

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(*) É membro dos Empreendedores Compulsivos, Trainer de Comunicação, Propósito e Performance, e tem como foco ajudar pessoas a desenvolverem competências de comunicação para potencializar engajamento e resultados com equipes e clientes.  Possui mais de 20 anos de carreira, agrega experiências e conhecimentos em empresas nos setores de Agronegócio, Automobilístico, Alimentos e Bebidas, Comércio, Construção, Farmacêutico e Químico, Financeiro e Seguros, Papel e Celulose, TI e Telecom, Varejo. É especialista em temas relacionados à Comunicação, Liderança, Gestão de Equipes de Alto Desempenho e Gestão de Conflitos, Vendas, Negociação e Articulação de Soluções.

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