Indo além da cultura meritocrática

Ao longo das últimas duas décadas, as empresas brasileiras tem buscado implementar a cultura meritocrática em seus ambientes de trabalho

A meritocracia - nos moldes em que a conhecemos hoje em dia - surgiu inicialmente nos bancos de investimento americanos em meados da década de 80. Ganhou notoriedade mundialmente, e passou a ser adotada em várias empresas em decorrência dos impactos positivos (e rápidos) que ocasionava. É baseada primordialmente na remuneração variável agressiva dos colaboradores e na promoção baseada exclusivamente no alcance de metas palpáveis e numéricas. Parte do princípio de que “o que pode ser medido, pode ser melhorado”.

Recentemente visitei uma das maiores empresas brasileiras que é referência mundial na prática da meritocracia e conversei por algumas horas com seu diretor da área de Recursos Humanos. Falou-me que este ano, novamente, todos os números da empresa tinham alcançados novos recordes e sua produtividade nunca fora maior. Disse que o único item que continuava vindo muito ruim nas pesquisas internas era referente à percepção da qualidade de vida de seus colaboradores, que continuava vindo muito ruim, próximo das notas mínimas do questionário de avaliação.

eduardo moreira

Eduardo Moreira
É autor de Encantadores de Vidas, O Encantador da Montanha e Investir é Para Todos

O encontro me fez refletir sobre o modelo meritocrático atual das empresas. Em meu processo de análise, sempre gosto de levar as situações aos seus extremos para poder acessa-las mais claramente. Imediatamente imaginei um mundo onde todas as empresas adotassem esta cultura exatamente da forma como as empresas mais admiradas atualmente (como esta que visitei) a praticam. Teríamos um universo de empresas incrivelmente lucrativas compostas por colaboradores absolutamente infelizes. Não é o mundo em que eu gostaria de viver.

É por isso que convido as pessoas a repensar o modelo meritocrático. Não abandoná-lo, mas somente repensá-lo. É chegada talvez a hora de sua versão 2.0. Uma versão na qual as metas não sejam compostas exclusivamente por números.

Em que mostrar a cara até meia noite seja menos importante do que ter uma nova ideia. Que valorize mais o legado e perpetuidade que um colaborador deixa para sua empresa do que o resultado isolado de um mês de trabalho. Que tenha como uma das metas, junto com o lucro, a qualidade de vida de seus colaboradores. Meritocracia tem a ver com dar poder (cracia) aos que tem méritos. O que é preciso redefinir, na minha opinião, são os méritos.

O lucro é condição indispensável para a sobrevivência de uma empresa e, portanto, é um dado da equação. Mas a qualidade de vida de seus colaboradores é condição indispensável para uma sociedade plena, e mais especificamente para uma empresa “encantada” ou “encantadora”.

 

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