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O mito das malabaristas de plantão

Andreia Junqueira (*)

Você já se sentiu como uma malabarista, tentando sustentar vários pratos ao mesmo tempo? Esse é o estereótipo de uma mulher bem-sucedida no século XXI

Uma malabarista ágil e precisa, capaz de manter os muitos aspectos de sua vida no ar, sem deixar nenhum prato cair ou quebrar. É o sentimento que acompanha as mulheres que buscam conciliar os avanços na carreira com os cuidados com a casa e a família, perpetuando um ideal feminino de equilíbrio. Estamos longe de ter alcançado a igualdade de gêneros, mas é inegável os avanços conquistados nos últimos anos, em termos de: escolaridade, oportunidades profissionais, salários etc.

No entanto, pesquisas realizadas por Stevenson e Wolfers da Wharton School revelam que essas conquistas não se traduziram em mais felicidade e realização. Ao contrário, evidencia-se maiores níveis de estresse, menos qualidade de vida, menos jovens com desejo de se tornarem líderes e um risco potencial de perda de executivas. Para avançarmos na ambição de uma sociedade com oportunidades iguais é preciso colocar uma lente sobre esse tema.

As raízes históricas dessa contradição surgem da crença de que seríamos capazes de realizar tudo com maestria: conquistar espaço no mercado de trabalho e a atender as expectativas sociais de nossos papéis, conquistando o tão sonhado equilíbrio. Ignorando assim, o fato de que nossas vidas pessoais e profissionais estão conectadas e que não somos capazes de transformar o tempo em um recurso elástico.

Desde a era industrial, essa mentalidade é reforçada nos ambientes organizacionais que consideram normal “deixar as questões pessoais em casa”. É claro, que esse mindset afeta também a qualidade de vida dos homens. A diferença é que eles não são cobrados pela sociedade de cuidar da casa e da família. A pesquisa PNAD 2017 revela que apesar do tempo dedicado a as atividades domésticas e familiares terem crescido entre os homens, as mulheres dedicam, o dobro do tempo, chegando a 20,9 horas semanais.

Um estudo conduzido por pesquisadoras da UFSCar concluiu que esta divisão desigual sobrecarrega as mulheres, prejudicando-as em relação à satisfação com o desempenho profissional, familiar e bem-estar geral. A pesquisa relata que para ter tempo para questões familiares, elas reduzem o descanso, as atividades sociais e o cuidado com a própria saúde física. No pano de fundo, estão crenças femininas arraigadas que se transformaram em verdadeiras armadilhas. Como, por exemplo, que é possível ter tudo, fazer tudo com perfeição e ser multitarefa.

Hoje somente 40% das mulheres que entram nas organizações, aspiram se tornar executivas. É o chamado gap de ambição de liderança feminina de acordo com a pesquisa Women in the Workplace 2015. Mesmo entre as que querem, há uma preocupação se serão capazes de gerenciar tudo. Quando o foco são as que estão em posições executivas, há relatos sobre os desafios de realizar um trabalho perfeito, a culpa por não conseguir equilibrar vida pessoal e profissional e a ambivalência frente ao poder, conforme artigo publicado em 2018 pela Korn Ferry.

Outro olhar recai sobre o conceito de sucesso. De acordo com a expert em liderança feminina Sally Helgesen o coach Marshall Goldsmith, apesar de ser um atributo de valoração individual, ele tende a variar com o gênero. Para os homens e as organizações, conquistar remuneração atrativas e posições de destaque são os principais indicadores de sucesso.

Já as mulheres bem-sucedidas, consideram dinheiro e posição importantes, mas tendem a atribuir um alto valor também à qualidade de suas vidas, ao propósito e impacto de suas contribuições. As práticas organizacionais vigentes aliadas a essa distinta forma de análise de custo benefício, podem tornar as executivas mais propensas a deixar empregos que ofereçam altos salários e posições de destaque, mas que comprometam de forma significativa suas qualidades de vida.

(*) - É consultora, mentora, coach executiva e membro do Grupo Nikaia.

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