Mario Enzio

Quero desse jeito

É uma situação traumática. Talvez seja melhor construir do que reformar.

Nem quero recordar o que eram as paredes sujas de pó e os cômodos com as peças de decoração e objetos amontoadas sem poder caminhar esperando que o cimento secasse antes de poder aplicar a massa fina. Ainda assim, penso no que pode ser uma obra de mudança radical para melhorar o que está feito.
Vem-me à mente a figura de quando fazemos reformas em uma casa com pessoas morando e bichos de estimação incluídos. É uma situação traumática. Talvez seja melhor construir do que reformar. Uma obra com pessoas circulando, interagindo, procurando por alguma peça que está desaparecida há dias, não deixa de ser uma experiência que poucos gostem de reviver.

Por outro lado, por mais se queira criar um ambiente de normalidade, não se consegue. A desordem é parte do negócio para se melhorar a disposição dos cômodos, da locomoção ou o conjunto da obra. Tudo se faz para proteger o que se tem dentro, mas mesmo assim alguma coisa acaba se estragando. Além da poeira, do cheiro forte que fica no ar, pés ou mãos sujas acabam deixando alguma marca para sempre num inexplicável ponto.

Quem já fez uma obra, uma reforma, que era para durar um mês e durou um ano? Ou têm aqueles que são viciados em obras: estão em reforma constante. Quem quer que esteja ou já esteve numa dessas condições sabe o que é conviver com as reclamações e chateações que geram uma reforma dentro de uma casa.

Se construir nessas condições já nos traz vantagens ou desvantagens de se pensar em um projeto ideal e que nos sirva para sempre quando concluído, faça uma ideia construir, estruturar, reformar o que se poderia dizer de um país imaginado?

Comparo essas reformas dentro de uma casa com as que poderiam ser feitas em um Estado. Seja para se debater: qual o modelo ideal de representação partidária, administrativa, ou o modelo econômico que atenda progressistas ou conservadores? Qual deve ser a reforma que faça com que o Estado não interfira em demasia, mas regule os excessos?

Saber que é preciso fazer uma, duas, três ou tantas reformas quanto forem necessárias, penso que não seja uma atribuição só de quem administra os assuntos públicos, mas da participação ativa em políticas publicas. Sim, pois quando estamos nos referindo a essas reformas estruturais, profundas, que sejam duradouras, estáveis e que não sejam facilmente desmontadas com a simples modificação por uma lei ordinária.

As leis são mudadas aos sinais de mera insatisfação de interesses pessoais de parlamentares que nem sempre visam o coletivo social. Portanto, devemos ficar atentos.

É como se viessem em sua casa e modificassem a sala, porque a televisão não deve estar mais nesse ambiente, pois ficaria bem melhor no corredor. Mas, quem sabe qual o melhor jeito para mim?

Que tal você pressionar mais por conta de reformas, no mínimo, moralizantes?

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Email: (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).