Mario Enzio

Qual a sua especialidade?

Quando se constrói uma casa, busca-se um médico ou um veterinário para lhe dar consultoria na edificação?

Falo de quem contrata na hora um especialista na matéria. Entendo que em determinados setores da administração pública deveria existir essa preocupação. Vamos ao assunto da vez – embora existam outros: fundos de pensão das estatais. Não deixo de verificar que os erros, os equívocos de avaliação e gestão, são contumazes.

Percebemos pelas leituras que sempre há o ingrediente político que se diz necessário ter nessas administrações. Não se deveria esquecer a essencialidade da presença dos devidos conhecedores da matéria. Sonho que mesmo com técnicos não poderia ter interferência em seu trabalho. Mas, não sabemos desse comprometimento com a causa pública ou com o compromisso de apadrinhamento que esse técnico possa ter por quem o indicou ao cargo.

Ou seja, – nós os observadores desse lado de fora – a não ser que estivéssemos acompanhando tudo que passa em uma determinada empresa pública, acabamos sem conhecer de quem pode ser a culpa pelos rombos.

Na verdade, se pensarmos em todos esses desvios, fraudes, irregularidades, ardis, monstruosidades, falcatruas, tretas, conchavos, tramoias, dolos, eles vão sendo noticiados em mensagens cumulativas. Vão se intensificando com o tempo. Mas, só quando há algum fato absurdamente indesejado ou – geralmente – inexplicável é que algumas pessoas se dão conta da grande fissura no casco do navio. Ou seja, quando o barco já está afundando.

Aí, algum político poderá dar um sinal de alerta: “Espanta-me as perdas com o dinheiro público”. Pior dessa intrincada situação é quando não se tem certeza se quem está gritando é por que já fez parte do esquema e não faz mais ou se está tão indignado quanto nós estamos. Como especialista em pesquisa bibliográfica, busco as fontes e analiso a cronologia de fatos. Qualquer observador também saberá avaliar quando há um problema. Para quem gosta de mais metáforas, vamos às novelas: não deixe de acompanhar desde o primeiro capítulo se quiser conhecer o contexto da história. Acompanhe desde quando se fala a respeito do tema.

A notícia – do momento – indica 52 bilhões de reais em rombos nos fundos de pensão. Só para ficar nesse valor. Esse montante foi subindo ano após ano e sendo noticiado. Como numa novela, em capítulos, já nos vinham indicando que havia algo de errado com os fundos de pensão da Postalis (Correios), Petros (Petrobras), Funcef (Caixa Econômica Federal), e na Previ (Banco do Brasil). Ou seja, se acompanhar identificará onde há problema.

Seria a questão de já se ter trocado políticos por técnicos ou especialistas para gerir esse patrimônio? O que se conseguiria melhorar? Administrar nem sempre se concilia com a pressão política. Uma proposta emergiu da torre de comando essa semana: a de que políticos não deveriam gerir esses fundos. Um projeto de Lei seguiu do Senado à Câmara.

Quanto a esse dinheiro? Considere como perdido! Não dá nem para especialista.

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).