Mario Enzio

Salve-se

Conheço da arte da diplomacia, assim como na política internacional, que quando dois povos não querem brigar sentam-se numa mesa de negociações.

Dias atrás, numa dessas mesas que quase decidem o destino do mundo, deu-se por fracassada a tentativa de acabar com a fome em uma região devastada pela guerra e disputada sem as considerações dos que vive por lá: África. O continente é muito grande para falar nele como um todo, mas podemos focar na Etiópia, Somália, Sudão. Não lemos notícias que trazem novidades, o que se sabe é que, se uma política não deu certo, é urgente apostar em outras.

São tristes essas realidades: fala-se nas consequências dessa pobreza como a herança deixada pelos europeus, de governos corruptos ou em disputas por áreas ricas em minérios, jazidas, até rixas entre etnias, tribos, e a religião. Por aí vão decifrando cenários complexos de causas e consequências que, ao mesmo tempo, quando parece que têm uma solução emperram num pequeno detalhe que não conseguem concretizar. Nem sempre esse desejo de negociar se concretiza na vontade política na pratica.

Autoridades nesse assunto até dão um prazo para que essa política do salve-se quem puder até lá seja implantada: 2025. E nos próximos anos muitos morrerão de fome. Que horror! A maneira de se combater um problema, de ajudar pessoas, nem sempre tem um efeito imediato. Essa é o fato que as decisões políticas nos fazem ver e enxergar, sem que com isso nos convençamos de que talvez seja essa a melhor maneira de resolver um problema: resolver agora para não sofrer no futuro.

Penso naqueles que acordam com fome, sem opções de ter um emprego, nem qualquer tipo de estabilidade e se encontram à espera de uma ajuda que, literalmente, lhes cai do céu sobre a forma de ajuda humanitária. Olhando para fotos e vídeos de mães e crianças em situação de vulnerabilidade, tento me colocar naquela situação.

Como será que estão pensando: essa minha geração irá morrer por motivo da fome, porque a comida não chega. E nem vou me ater aos números alarmantes de pessoas infectadas que se deslocam e espalham esse cenário de incertezas. Penso que quando a causa se confunde com a consequência há pouco a se fazer para sair desse ciclo de miséria total.

Voltando à mesa de negociação, em pratos limpos, vemos que as soluções podem existir, pois há pessoas que querem resolver com ações praticas, entretanto há interesses escusos, ditos superiores, que atendem primeiramente aos que decidem. Olhar para distante de nossos problemas parece fácil resolver o dos outros, mesmo nessa dimensão?
Não seria fácil, então, resolver nossos problemas? Ao que parece, não!

Pois, por aqui, também, nos gabinetes, mesas de restaurantes, em recintos abertos, onde há ou não uma claque que vá divulgar aquele pensamento, que não contrarie vontades egoístas e atenda primeiro o interesse daquele político, que não seja em benefício da nação.

A política do salve-se quem puder desde que eu seja o primeiro. Isso lhe soa parecido?

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Email: (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).