Mario Enzio

Cotidianos

Tem sido interessantes viver por esses dias! Recordo-me que a filosofia inspira a reflexão de que cada tempo tem suas características de extremos e de relativa normalidade.

Em, esses dias eram assim, uma novela série que está na televisão, vemos, em parte do enredo desenvolvido, uma família atormentada por ter sua filha envolvida com um suposto ativista de esquerda. Se for ou não um novelão pouco interessa a essa critica. O que vale é a falta de conhecimento de muita gente dos fatos daquela época. Se perguntados, como revelou uma enquete, pouco precisa, mas reveladora, não há uma compreensão do que ocorreu naqueles dias. Diga-se de passagem, não tão distantes.

Podemos esquecer o que não nos convém se a vivência não for suficientemente carregada de emoção: a comoção. Quando nos atos de emoção são extremos, há um choque, derramamos lágrimas daquele ato. É como se deixássemos marcado na memória por aquela situação vivida. Os dias ficam registrados como sendo quase que inesquecíveis de tão intensos que foram presenciados naquele cotidiano.

Ou seja, se não formos aos livros de história, e bons livros que tratem do assunto, não conseguiremos reconhecer ou entender, pelo menos, o que motivou e foi contextualizado em determinado momento do passado. Não me debruço além nas considerações de como interpretar registros históricos até por ser apenas mais um leitor e não um especialista na matéria. O que considero, é que passados alguns anos do que estamos presenciando nesse momento em nosso país continental, poderão restar perguntas de como esses dias eram.

Quem saberá responder sem isenção? Historiadores afirmam que a história é escrita pelos vencedores, e os catedráticos depois tentam reescrevê-la. Os depoimentos que um dia foram sigilosos passam a ser de domínio público, os que hoje são os protagonistas poderão ser meros senhores ou senhoras aposentados, velhinhos, e quase mais desiludidos que irão contar suas histórias sem censura. E o que irá ocorrer?

Talvez sejam lembrados pelas suas boas ou más ações ou de que não estão contando tudo o que sabem ou que a memória lhes falha ou falta. Quem com eles conviveram dirá até que estão mentindo ou, menos, que faltam com a verdade. Acabamos por começar a pensar que os cotidianos, em suas marcas de tempo, registram que somos imperfeitos e que as versões podem ser mais imprecisas do que os fatos. Nesse caso, fatos, em geral, dependem dos olhares ideológicos, da estrutura de crenças.

No popular, no olhar de quem está lendo ou presenciando aquele fato, cada um enxerga o que quer ver. Pode ser que esteja lhe falando uma mentira, mas acredita tanto naquela dita postura ética, naquela sublime imagem que não consegue perceber o que está á sua frente. Fica comovido com tanta emoção que é incapaz de pensar além daquele momento.

Com isso, daqui um tempo, quem sabe como conseguiremos recordar como esses dias eram cheios de inconsistências ou inverdades: apenas cotidianos?

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Email: (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).