Bobo da Corte

Funcionário da corte que era encarregado de entreter o rei e a rainha e de fazê-los rir.

Diferença gritante entre um sujeito que podia criticar, fazer piadas acidas e o que lhe trazia benefícios financeiros. Nesse modelo de “funcionário” não enxergaria um artista contratado, mas um manipulador, um jogador astuto, como muitos dos amigos que fazem parte dos mais próximos da Corte.

Fica a constatação, de que esse jogo político perde sua essência, sua capacidade de compreender as necessidades do lado público, e fica restrito a um grupo que se diverte em descobrir a melhor maneira de se manter no poder. Esses jogadores, competentes e assíduos, e os artistas bufões são bem conhecidos nessa esfera íntima de convívio.

Sabe-se em quem se pode confiar ou com quem se deve falar pouco, com os quais as criticas têm que ser moderadas ou abafadas. A arte de mentir no atacado ou em dizer em outras palavras, em não ser direto, deixar para ser subentendido. Lei? Para quê? Se para uns é possível criar uma de seu interesse, e quando se tratar de interpretar buscamos uma jurisprudência que contradiga o que não nos convém.

São pequenos golpes à democracia, que vai se contaminando na mão de conhecidos grupos que se reciclam, que se alternam em turnos de decisão. No estilo do acerto, quase como um paradigma: “hoje você comanda, amanhã serei eu!

Afinal, amanhã posso estar por baixo, mas não tão embaixo. Ainda estarei perto do poder. Estou entre os que ouvem as piadas ou quem são seus protagonistas. Não importa, pois a satisfação de saber que estava presente naquele evento torna-o familiar na Corte. E os grupos de amigos que um dia podem ter sido amigos se tornam inimigos por conveniência. Jogo de cena, resistência advertida, oposição controlada. Alguns com a convicção distorcida.

Nada disso importa, não confio nesse jogo político em que a contaminação fica evidente, mas não consegue ser esclarecida. Ou pelo menos demonstra que suas raízes são bem mais profundas e que a punição pode ser amenizada. Há uma sensação de que de um momento a outro, uma peça será mudada nesse tabuleiro e tudo ficará nas mãos dos mesmos manipuladores. Quer sejam do lado dos beneficiários como dos beneficentes.

Sendo um jogo de cartas marcadas, aí, invertem-se os papéis, passamos a ser os bobos da corte. Aqueles que gritam e esperneiam porque não estão satisfeitos, que pouco podem fazer a não ser fiscalizar e querer imitar essa política de que somente poucos podem levar vantagem. Pois, essa é a imagem que é passada: “se quiser se beneficiar faça negócios com a Corte”. Senão, será um mero coadjuvante vassalo que cumprirá seu papel num exemplo de honra, lisura e sensatez.

E se, nas condutas, cometer delitos, como furtar cerveja de um caminhão tombado na rodovia, alguém irá lhe filmar, distribuir na internet, e logo estará no rol da fama política.

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).