Distopia

Sabe aquela sensação em que as circunstâncias que se apresentam não atendem suas expectativas e nem lhe dão alguma perspectiva positiva?

Quando não há uma visão de futuro que possa dizer que seja aceitável ou que seja segura. Em outras perguntas: você não tem respostas que lhe satisfaçam quanto ao que pode vir por aí. A isso se dá o nome de distopia, em rápidas palavras. Tem certa ligação com a atualidade, quando se começa a presenciar que certos dilemas morais ficam relegados a um plano futuro.

Quer seja em acreditar que não será agora que iremos resolver nossos problemas, mas só daqui a alguns anos. Não deixa de ter um pesado sentimento de derrota, como num discurso pessimista que flerta de vez em quando com a esperança. Nesse excesso de realidade que beira um mundo paralelo há um sintoma de estupidez coletiva, que mesmo quando as máscaras caem e situações escusas começam a ser descobertas, há violência banalizada e generalizada.

O poder fica mantido na esfera de certa elite que suaviza sinalizando com benesses temporárias atendendo a carências de determinados grupos insurgentes. No cinema isso fica mais claro, já que o tempo condensado se passa por uma resenha ou nas corriqueiras duas horas de exibição.

Enredos pesados, passados em ambientes densos, de personagens exóticos, acabam por mostrar como limites são extrapolados com facilidade. Em medidas certas é quando a arte imita a vida, expõem na ficção científica os governos fracos, a corrupção sistêmica, os malvados que se valem de atos inescrupulosos para auferir vantagens.

Os anos são condensados em cenas de destruição, submissão e desgosto. Até quando o que já é ruim fica ainda pior. Nada mais desprezível. Mas, o terceiro ato chega, sempre pode ter o contra ataque de um super herói que saído das cinzas irá devolver a paz utópica àquele povo oprimido. Cena final, que todos ficarão felizes até a próxima película da série.

Nesse resultado nem nos filmes a utopia, que se caracteriza que tudo é demasiado bom para ser praticado ou ocorrido, acaba se perpetuando. Não há imitação dessa arte nem na ficção científica. Atos dessa distopia são comuns também nos livros, nesse estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão e desespero.

É uma situação desconfortável, é demasiadamente ruim para ser praticada. Nas películas a sociedade mostra-se totalmente corruptível, caracterizada pelo autoritarismo ou totalitarismo. Os governos fracos são manipulados por vilões ou os vilões são o governo estabelecido.

Esse lugar onde o mal é a prioridade, sendo o oposto de uma sociedade utópica, teria alguma conexão com as nossas sociedades? A ação humana é quem a determina, já que maus comportamentos são possíveis ou onde é significativa a ignorância dos que não fiscalizam ou participam na gestão de interesses coletivos.

A essa dificuldade em querer se privar da felicidade é sintoma de doença social, uma aceitação amordaçada, que precisa ser rompida já que um lugar ruim não é o que quero para mim.

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).