Ajustes

Quando o salário ou o décimo terceiro não é pago, um problema se instala. Mas, quando as notícias são piores, que sua empresa foi encerrada, o ajuste é necessário.

Bate o desespero e aquela sensação de que é necessário agir com rapidez na busca de novas frentes de trabalho. Contas são feitas para avaliar quanto tempo o dinheiro em caixa poderá pagar as contas. Cenário de desesperança e instabilidade é visualizado. O fato principal que motivou o ajuste veio de fora, de uma situação exterior à vontade.

Em outras ocasiões, uma família apela para um ajuste financeiro quando precisa poupar para adquirir um bem ou realizar algum evento, promover uma festa ou viagem de férias. Na maioria dessas vezes o ajuste é encarado como um sacrifício benéfico, diferente daquele corte na carne, que acaba com privilégios.

Já há quem viva dizendo que precisa adequar seu orçamento à realidade, e não consegue superar essa proposta, que fica sempre no papel. Caso de quem tem as contas maiores do que seus rendimentos. Vivem financiando sua dívida e numa corda bamba constante. Um mês paga uma dívida, outro refinancia um bem, pede emprestado a uma pessoa que ainda não lhe conhece. E assim vai nesse ciclo de sofrimento.

Países e famílias têm exemplos que nos levam a pensar por que estamos sofrendo com essa onda de ajustes e acertos com contrapartidas fiscais. Um país quando não atrai investimentos ou entra em recessão está, digamos comparativamente, quase que desempregado. É verdade que isso é absurdo, já que países não vão à falência, mas essas nações entram em uma espécie de concordata, uma recuperação, que precisa ser encarada sem desespero.

Continuo a pensar como é ter uma grande família, composta de mais de uma dezena de filhos, que todos têm cartões de crédito. Agora os pais desempregados têm que tomar de volta para que as contas fechem. A gritaria será geral, muitos irão gritar: por que perder o direito que conquistei. Numa família, quando há essa preocupação e decisão em resolver o problema, pode haver consenso nessa direção.

Numa empresa, em que salários são majorados bem acima da média do seu setor, aproveitando as épocas de boas vendas, desenvolvimento desenfreado e alta rentabilidade, um descontrole pode até ser tolerado. Mas, se o cenário muda, a empresa deixa de estar entre as que mais faturam, seus dividendos despencam, é certo que seus acionistas ou sócios irão pensar em demitir ou encerrar atividades. É a lei de mercado.

Um país que uns tantos milhares de funcionários públicos estejam ganhando mais do que o teto estabelecido pela Constituição, me parece que estariam nesse mesmo caso dessa empresa, que se descontrolou na remuneração de seu quadro funcional. O correto seria que o ajuste fosse possível ser aplicado em todos esses níveis.

Não há outra maneira de voltarmos a crescer e de recuperarmos esses períodos senão praticarmos profundas mudanças estruturais nas famílias governamentais.

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).