Homens da Mala

Nem todos têm amigos que possam lhe servir incondicionalmente em assuntos escusos.

Uns dirão que não precisam, pois podem fazer o que for necessário sem ajuda, mas têm outros que aceitam missões quase impossíveis, capazes de arriscar a própria vida, assumindo a culpa ou ficando presos.

Arriscar é o nome do jogo. Para uns se trata apenas de cumprir uma rotina, mesmo com tantas emoções. Simples assim. Ir a um lugar, acondicionar notas graúdas de preferência, em uma mala e transportar ao destino da felicidade. Livre de impostos ou punições. Tanto o homem da mala, como a própria, tem suas raízes em algum lugar do passado.

Antes, seria um saco de moedas, pagaria um acordo, um suborno ou uma informação, do tipo: - “olha, ele está ali, deitado debaixo da videira". Nem sei se esse diálogo existiu, porque quando se paga, pouco se fala ou só se fala o essencial: - “Está tudo aqui, quer conferir?”

As transferências eletrônicas, com as chaves swift já foram relativamente seguras. Depois das descobertas de contas no Panamá e adjacências pelo mundo das off-shores a mala ainda se mostra mais segura. Mas é arriscado andar com dinheiro vivo. Desperta o olhar fiscalizador.

Se em sua próxima viagem a um país, perto ou distante, poderá ou não receber uma papeleta para preencher e declarar bens e dinheiro. Está expresso, na maioria delas, o limite de dinheiro em espécie que poderá estar transportando. Controles e cuidados que as nações se impõem por seus tratados de cooperação e demais institutos.

Mas, o nosso foco é regional. É interno. É o dinheiro que está no avião aprendido na fronteira, que caiu com a tempestade; má sorte, senão teria chegado para garantir mais um fornecimento de drogas. É possível. Tem gente que dirá que era para pagar o carregamento de algum produto agrícola. Bem, não deixa de ser daquela origem.

O dinheiro, esse fruto de uma operação que não quer ser reconhecida para não pagar tributo ou esconder um ato ilícito, pode também estar em um carro abandonado, boiando numa praia da Urca, chegando com as ondas à praia, num par de meias ou numa cueca.

O caso clássico ainda é daquele que transporta a mala executiva preta, o mensageiro sorrateiro, aquele amigo ou funcionário que não sabe de nada daquele que fatura alguns milhões. Tudo pode ter sido um encontro de colegas na infância ou adolescência, de alguém que preferiu deixar de seguir seus passos e resolveu ajudar aquele que se tornaria seu mais fiel amigo. Nem sempre.

Nesses tempos de delação, presencia-se a figura do sujeito “mui amigo” – aquele que faz, apronta, participa, mas quando a coisa aperta quer sair do problema que ajudou a construir. Seria a figura do cúmplice arrependido.
Impressiona, afinal, que as contas parecem nunca fechar do dinheiro desviado desses que acumulam patrimônios vultosos.

Devolvem parte do dinheiro que acumularam dessa forma, mas sempre tem mais para se manter numa eterna mordomia. Haja esquema de malas.

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).