Muitas amizades têm sido desfeitas ou estão abaladas com a polarização de ideias políticas que estão proliferando nos círculos sociais. Vamos ao local onde isso é menos discutido: nos bares da vida. Será?

Pelo menos no meu ciclo de amigos, não conheço quem goste de estar tomando uma cerveja, apreciando um delicioso petisco e queira defender uma posição política. Em geral, posições ideológicas vêm com uma carga de crença superior. No discurso metódico e imperativo do “o que eu sei é mais abrangente, inteligente, do que você possa saber”. Isso não combina num ambiente descontraído. Mas, algumas pessoas não se importam com isso. Querem mais é se expressar e chegam a quase impor suas ideias. Assim fica difícil manter uma amizade.

Para outras pessoas, quando se identificam com aquele grupo discursivo, é como se dedicar ou seguir uma religião. Não há muito que discutir, por mais que se tente contra argumentar, o que você fala não chega a ser ponderado. Para essas pessoas, altamente radicais em suas posições, nada é relevante a um debate que acrescente. Tudo o que se fala é ouvido como uma ameaça à sua fé. Considero que há uma conotação doutrinária, que elege sem eleição, que parte deles o que consideram que seja o melhor para nós. E ainda temos que aceitar sem reclamar.

Aí entra uma carga emocional que é a maneira de como relatar ou se defender. Há o jeito enfurecido, aguerrido e litigante de mostrar que seus argumentos são mais válidos do que o do outro. Geralmente, há traços de nervosismo, compostos por excesso de salivação, olhos bem abertos, gesticulação forçada, punhos cerrados, voz alta e ininterrupta. Há quem diga que isso pode ser sinal de uso de algum entorpecente. Mas, é verdade.

É a tal da droga da cegueira utópica, a não visão de que uma opinião, duas opiniões, algumas razões, ainda assim nunca chegarão perto de alguma verdade absoluta. O que se pode adjetivar de tudo que ocorre nesse momento político, ainda faltarão argumentos que possam indicar o que seja considerado como ideal para uma população de mais de duzentos milhões de pessoas.

Com certeza, não será num local de diversão, num boteco, que se obterá a solução aos problemas econômicos e sociais. Por isso, amigos têm que rever seus pequenos universos paralelos. Onde muita gente opina, sem saber do que estão falando ou analisando. Por isso manter essas posições cristalinas é um exagero, principalmente quando esses desentendimentos retratam o que se espalha nas redes sociais.

Lamento que amizades tenham sido interrompidas ou estejam com suas relações afastadas, muitas vezes como resultado dessas câmaras de eco de outras opiniões. Nem políticos profissionais aceitam esse jogo de descarte. Eles se dizem adversários, jamais inimigos. Quando o interesse por alguma causa comum for maior deixarão de lado as desavenças.

E, há momento para tudo, entre as pessoas sensatas é bom avaliar se essa ressonância não abalará uma amizade.


(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).